terça-feira, 26 de outubro de 2010

A TAPERA DA RUA MATUTINA



     Um casarão antiquíssimo, em pleno Centro Histórico de Pirenópolis, infelizmente virou tapera. Localizado na rua Matutina (aquela que termina no fundo da Matriz), o velho imóvel está todo comprometido, com as paredes já tortas em vias de desabar. Não há mais como recuperá-lo. Se não desabar a qualquer momento, terá de ser demolido.



     Suas paredes externas são de adobe, mas as internas foram levantadas em taipa-de-mão (o popular pau-a-pique), o que comprova que se trata duma construção bem velha. Fotografei com detalhe uma das paredes, para aqueles que nunca viram o pau-a-pique.




     Os janelões azuis, que antes se abriam para a rua e dali expiavam seus moradores, agora estão trancados para sempre. Embora ainda persistam valentes os esteios e cumeeira de aroeira, o tempo pesou sobre as paredes e elas entortaram fatalmente.





     Os cômodos que davam para o quintal infelizmente já desabaram, e deles só resta a armação do telhado. E eu penso cá com meus botões: quantas festas já fizeram naquela casa! Quantos aniversários ali comemoraram, casamentos celebrados, batizados de pessoas de quem ninguém mais se lembra. É triste ver apagar a memória!




     Pelo que soube, o casarão arruinado pertencia a uma pirenopolina (não é o caso de mencionar seu nome), que o recebeu de herança e vendeu a estrangeiros. Esses por sua vez deixaram que infiltrações e outros males comprometessem a estrutura do imóvel, sem nunca aparecer para conferir suas instalações. Ou seja, compraram e abandonaram.



     Não é incomum situações como a do imóvel da rua Matutina. Já presenciei a ruína ou demolição de muitos casarões históricos. E isso ocorre porque quem deveria fiscalizar não o faz. Por conta da inércia do Poder Público, em 2007 o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro protocolou uma ação contra o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em Petrópolis, para que o órgão cobrasse providências dos donos de bens tombados em vias de ruir. Mais tarde a decisão valeu para todo o Brasil.


     O Iphan alegou que não usava seu poder de polícia porque faltava a normatização das regras para a aplicação das multas. Mas por conta da sentença de Petrópolis, a normatização está pronta e o órgão já pode começar a multar. Trata-se da Portaria nº 187/2010 (do Iphan), publicada no dia 11.6.2010, que regulamenta os procedimentos para apuração de infrações cometidas contra o patrimônio cultural e que entrou em vigor no dia 9.10.2010. Agora, pelo menos em tese, quem danificar um bem com tombamento nacional poderá ser notificado e multado.

Fonte – sites:
http://portal.iphan.gov.br/portal/montarDetalheConteudo.do?id=15617&sigla=Noticia&retorno=detalheNoticia
http://www.cultura.gov.br/site/2010/08/19/dano-a-patrimonio-agora-vale-multa/

Adriano César Curado


video

21 comentários:

  1. Fico revoltada com uma coisa dessas. É um inferno ver esses casarões ruindo. Esse desleixo tem que ter um fim, mas as autoridades não fazem nada. Cada a fiscalização? Agora não adianta mais multar ou prender, o prédio já tá no chão.

    Lamilla Sama

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  2. Tomara que as providências sejam tomadas a contento, porque no Brasil legislação e regulamentos é o que não falta. Falta sim, fiscalização e efetividade. Luís Eduardo

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Caro escritor, sinceramente, não acredito que esse decreto do Iphan vá mudar algo de concreto em relação à preservação do patrimônio histórico. Como já expliquei no comentário do seu artigo sobre a demolição do Mercado S. José, a política do órgão é de preservação da fachada. Quem mantiver uma porta quadrada de madeira e duas janelas está dentro de estilo colonial. Não fazem uma pesquisa séria sobre o material de que é composto o prédio, as técnicas de construção, as modificações possível sem comprometimento da originalidade da obra. Vou citar o exemplo da Pensão Central, que é prédio antiquíssimo, da época dos bandeirantes, e que foi deitada ao chão para ali montarem uma boate. Que fez a fiscalização (tanto federal quanto municipal) para impedir o ato? Nada. Por isso sou descrente quanto a uma melhora. De qualquer forma, parabéns pela matéria. É preciso não calar nunca.

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  5. Tem momento que dá vergonha de morar em Pirenópolis!

    Carol Cunha

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  6. Que droga! Pq deixaram cair a casa? Ninguém cuida de nada. Por isso que eu não vou votar em ninguém. CAmbada!

    Pedro Ferreira Soares

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  7. Espero que pelo menos os proprietários reconstruam a casa no estilo colonial.

    Fernanda Moraes

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  8. Tô revoltada!

    Marilúcia Mello Lima

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  9. Infelizmente o tempo flui e consigo leva a realidade de um momento. Tudo passa, se transforma, mudam-se as cores que explodem nas entranhas do prisma e gera o sol na abóboda celeste. Até nós mesmos, iludidos expectadores deste espetáculo fabuloso chamado vida, não somos quem éramos ontem e nem seremos amanhã o mesmo de hoje. O que temos de fazer é nos adaptar às modificações e transformações que estão à nossa volta, sob pena de nos tornarmos sedentários inúteis na engrenagem do mundo. É realmente lastimável ver um casarão, provavelmente do século XIX, ruir dessa forma. Mas aceitemos o inevitável e, em vez de nos lamentarmos por um ente perdido, cuidemos de salvar os demais que estão de pé, para que não suceda com eles o mesmo destino. Pirenópolis é uma cidade agradável e de bons ares, mas tem que tomar cuidado com os rumos que trilha, pois nada dura para sempre. Vejo uma porção de erros que se acumulam e ameaçam o futuro promissor desta terra – ameaças constantes ao patrimônio histórico e meio ambiente, a formação das crianças, a ronda das drogas etc. –, só que ainda é tempo de rever atos e planejar o amanhã, como se fosse o ontem.

    MAURÍCIO DINIZ

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  10. Enquanto existirem governantes preocupados apenas com o próprio umbigo, havará realidade triste como a desse casarão antigo e ruído. Uma vergonha nacional!

    Pâmella Christina Santos

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  11. Passei por lá esta semana. Não existe mais nem as ruínas que vc fotografou. Agora a prefeitura teve de intervir para que o lugar não virasse um mocó, ponto de viciados em drogas e marginais. Colocaram um tapume provisório, no aguardo de que o proprietário apareça algum dia. Essa é a Pirenópolis que queremos?

    Fernanda de Souza

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  12. Ao escritor Adriano César Curado e a todos que postaram comentário nesta matéria do blog. É realmente uma pena tremenda ver um casarão de tantos anos ruir desta forma. Dá dó, revolta e uma cera curiosidade. Sim, curiosidade. Gostaria eu de saber aonde foram seus proprietários, já que, como a casa está abandonada há tempos, obviamente jamais retornaram a ela. Mas o motivo deste comentário é isentar de culpa o poder público. A prefeitura de Pirenópolis (pode local) e o Iphan (pode federal) não são responsáveis pelo estado de ruína do prédio em questão. Poderiam fiscalizar e multar? Sim, poderiam. Mas ainda assim não têm eles culpa alguma. Quem tem que conservar o patrimônio histórico particular são os donos (proprietários ou posseiros) do imóvel. O poder público cuida do patrimônio público e apenas fiscaliza o privado. No presente caso, considerando que quem de direito desapareceu sem dar notícias (nem sei que pagam IPTU, mas acho que não), pouco adiantaria a punição em multa. É o meu palpite sobre a questão.

    Paulo Ezequiel Mascarenhas

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  13. as taperas, no fundo, existem é na mente de quem as habitou... somos criaturas de sintonia... uns sintonizam com o bem e outros com o que não presta... respondi a questão?

    Samantra Lopes

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  14. É isso aí. Tudo que o governo não trata com campanhas de conscientização, mostrando que devemos gerir a propriedade pensando sempre no conjunto social, tudo isso acaba em tapera. Proibir, multar, danar-se... não adianta. É só deixar cair. As políticas conservacionistas têm de mudar.

    Francisca Lima Silva

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  15. Tudo acaba, gente! Ananias

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  16. Fernando P. Almeida Santos11 de fevereiro de 2011 08:32

    Passei ontem por lá e tudo está no chão, só ficou de pé um banheiro mais recente que os donos construíram, e nada mais resta dos adobes, pau-a-pique, janelas e portas. Mas eu não me surpreenderia se, a qualquer momento, começarem a limpar o lote e, na sequência, iniciarem uma construção lá. É que agora, por não ser mais um csarão histórico, podem edificar da forma que lhes aprouver. Aguardem os próximos capítulos.

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  17. Patrícia de Alencar14 de fevereiro de 2011 10:08

    É assim que a cidade pretende, um dia, ganhar o título de Patrimônio Histórico da Humanidade? Se Se continuar trantando com desrespeito seus bens materiais, Pirenópolis logo logo vai entrar em decadência.

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  18. Gente, soube que o casarão do Anhanguera foi demolido no Arraial da Barra, distrito de Goiás Velho! Parece que estão pondo abaixo todo o patrimônio histórico goiano. Meus filhos vão conhecer o quê?

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  19. Clayton Éverton Soares24 de fevereiro de 2011 16:33

    Seus filhos não vão conhecer nada, Fabiana. Quando eles estiverem grande, não vai existir patrimônio nenhum de verdade preles apreciarem. Será só de mentirinha. Igual à igreja Matriz de hoje, vc olho prela e pensa, nossa, como é parecida com a original!, mas eu te digo que não é parecida, não, é "igualzinha"! Sacou?!

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  20. Vânia Jacinto de Lima1 de junho de 2012 12:47

    Até hoje o terreno está lá com mato, perigoso, lugar de marginais que usam drogas. Demoliram essa casarão colonial por nada. Isso é uma vergonha em nossa Pirenópolis.

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  21. Geovanna Dias Vieira21 de junho de 2012 14:53

    Nossa, Adriano, depois de assistir ao vídeo eu fiquei indignada. Como puderam deixar um casarão tão antigo desabar dessa forma? Se isso continuar assim, a cidade vai acabar!

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