quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A casa pirenopolina VI


     O que caracteriza a autenticidade da casa pirenopolina é o uso das técnicas de construção da época do imóvel. O emprego de madeiramento tosco, lavrado sem o auxílio de serras elétricas. Os muros velhos de adobe que serpenteiam, quase que tombam para os lados, mas resistem de pé. Os janelões de tábuas irregulares, cheias de emendas e remendos. O travamento sem estética das vigas de aroeira. Esse conjunto somado é que faz a beleza dum casarão histórico.

      Mas nos dias atuais, quem compra um casarão antigo tem como primeira providência escorar a fachada e derrubar todo o resto. Na frente é uma belezura, digno dum cenário de filme antigo, mas por dentro nada mais resta de original.

      Num espetacular artigo publicado no jornal Diário da Manhã do dia 3.11.2011, na página 3, o arquiteto Garibaldi Rizzo nos fala das memórias da sua infância da Cidade de Goiás e analisa os casarões de lá com o ponto de vista técnico:

      “Denomina-se arquitetura vernacular a todo o tipo de arquitetura em que se empregam materiais e recursos do próprio ambiente em que a edificação é construída. Desse modo, ela apresenta caráter local ou regional. A cidade de Goiás é um exemplo desse tipo de arquitetura, uma vez que foi erguida aproveitando as pedras de sua região, a madeira, as taipas de mão e de pilão, e o adobe, que aproveitam os recursos do próprio terreno para erguer as edificações.
      (…)
      “Embora modesta, a arquitetura tanto pública quanto civil forma um todo harmonioso, graças ao uso coerente de materiais locais e técnicas vernaculares.
      “Trata-se de excepcional testemunho do modo pelo qual exploradores e fundadores de cidades portuguesas e brasileiras, isoladas dos principais centros urbanos, adaptaram modelos portugueses, arquitetônicos e urbanos, às difíceis condições da região tropical.
      (…)
      “A arquitetura residencial implantada na cidade é, em geral, de casas térreas, sendo raros os sobrados, e de fachada sem muita variedade somando 485 imóveis na zona de conservação. Internamente os cômodos se organizam ao longo de corredores lateral ou longitudinal central. Os longos quintais possibilitam casas de maiores dimensões, mas, via de regra, os cômodos da frente são os de convívio social, os do meio para áreas íntimas e os dos fundos destinados aos serviços.
      (…)
      "Quantas lembranças me trazem o interior destes casarios, o quarto do meio, as tramelas, as dobradiças rangedeiras, a pedra do Rio Bagagem que serve de encosto para a porta do meio...”








12 comentários:

  1. Eu gosto de Pirenópolis justamente por conta das paredes tortas, dos becos tortuosos e do clima de séculos passados. Se for para ver porcelanato no chão, por exemplo, fico aqui em casa mesmo.

    Parabéns a você pelas corajosas postagens desta série, tenho certeza de que surtirão efeitos positivos.

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  2. O casario acaba aos poucos e a história se apaga para sempre. Triste mas importante postagem.

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  3. Ai, Adriano, a cada nova postagem sobre esse assunto eu fico tão triste. Será que não tem ninguém aí no Piri para rever isso?!

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  4. Adriano,

    Aos 66 anos, ainda não perdi o fogo da juventude, e por isso continuo comprando boas brigas em defesa do óbvio. Acho perfeitamente normal termos novidades na cidade, nas áreas urbanas expandidas, com o conforto que a vida moderna oferece; mas defendo fervorosamente a manutenção do testemunho histórico, coisa que dá a Paris o glamour e o respeito que a capital francesa merece de todo o mundo. Infelizmente, temos aqui seguidores cegos de um arquiteto (francês, imagine!) como Le Corbisier, que ensinou os brasileiros a destruir tudo o que é antigo para substituir pelo novo - haja vista Lúcio Costa, como exemplo.
    Aos que defendem a cegueira de que se deve destruir tudo para construir um xópin para a juventude, acrescento que oferecer aos jovens apenas o que lhes agrada é comprometer o futuro. Todos nós, que estudamos com afinco e sempre procuramos o máximo de informação e subsídios para a crítica sabemos que aprender (e crescer) é doloroso. Atender ao gosto do jovem é oferecer-lhes o ócio, a música sem qualidade, a não-literatura, o não-compromisso social, o egoísmo que determina as tais gerações X, Y e Z.
    Infelizmente, nossa querida Pirenópolis é vítima da ignorância ou do descompromisso de governantes que permitem essas distorções por você mostradas nessas crônicas e artigos que valorizam seu blog.
    Meu conselho: copie o general Montgomery ante os rastros da barbárie nos campos de concentração: documente tudo, filme, fotografe, grave depoimentos! No futuro, alguém - certamente algum dos meninos ou jovens de agora - afirmarão que nada disso existiu.

    Abraços,

    Luiz de Aquino (agradecido pela citação)

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  5. O escritor Luiz de Aquino se expressou bem sobre suas crônicas. Estamos vivenciando a cultura do moderno, onde a “velharia” é vista como coisa do passado, que deve ser jogada no lixo e no lugar edificarem algo que julgam mais úteis. Sua luta é muito interessante, embora não saiba se dará resultado. É que conforme alguém escreveu num comentário noutra postagem, vivemos no país do faz-de-conta. Os donos dos casarões, ao deixarem apenas as fachadas de pé, fazem-de-conta que preservação; e os fiscais do governo, ao fazerem ouvido de mercador, fazem-de-conta que fiscalizam. E tudo segue como dantes do quartel do Abrantes. Isso é Brasil, meu amigo.

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  6. O mais triste disso tudo é que os casarões ficaram tanto tempo de pé, para tombar agora, justo em época da nossa geração.

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  7. Será que esses arquitetos não viram ainda que está errada essa autorização de "demolição" velada do patrimônio público nacional?

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  8. Não devemos exaltar apenas o moderno, em detrimento do antigo, pois assim seremos seres sem memória e portando sem futuro.

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  9. Suas postagens nesse assunto são corajosas e merecem nosso aplauso. Meus parabéns.

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  10. Nesse mês de março haverá um Encontro de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo em Pirenópolis. É muito bom que uma cidade como essa possa sediar esse encontro. Tais questionamentos também serão feitos e refeitos no encontro; espero muito que possa refletir no estado atual das coisas na cidade. Darei uma oficina sobre a Arquitetura Vernacular, investigando o que resta dessa arquitetura em Pirenópolis. Mas o que ainda me deixa feliz, enquanto futura arquiteta urbanista, são as providências de tombamento do patrimônio, que vem alcançando níveis municipais, estaduais e nacionais. É uma luta, mas é uma vitória. Há benefícios governamentais aos municípios que tiverem conservando seu patrimônio. Muitas são as edificações tombadas pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que é um órgão nacional, em Pirenópolis. Até mesmo as Cavalhadas, patrimônio imaterial do município.


    E para finalizar, apenas gostaria de fazer uma correção nos comentários acima. Lucio Costa foi um urbanista que realizou trabalhos magníficos e de extrema importância para nosso país. Inclusive, foi ele, o precursor do movimento de valorização da cultura nacional; incentivou a manutenção e conservação do patrimônio. A corrente de valorização da arquitetura barroca presente em Ouro Preto, por exemplo, e a fundação do antigo SPHAN (atual IPHAN) se deve a ele, permanecendo ainda no cargo de diretor da Divisão de Estudos e Tombamentos do SPHAN na década de 30.

    Fico feliz pelo interesse pela arquitetura visto aqui. Isso é raro.

    Isadora

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  11. REALMENTE TIVE A OPORTUNIDADE DE LER A MATERIA DO GARIBALDI RIZZO, QUE POR SINAL ESCREVE TODA SEMANA. ELE FEZ MUITAS PESSOAS LEMBRAREM DE SEU PASSADO NESTA BELISSIMA CIDADE. PARABENS A VC POR LEMBRAR DESTA MATERIA E PUBLICAR EM SEU BLOG.

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  12. Na minha opinião pessoal, a arquitetura colonial em Pirenópolis já está fadada a desaparecer. Se por um lado a cidade manteve intacta sua característica arquitetônica, isso por muitos anos, na atualidade está acelerada a destruição. E isso com o aval dos órgãos públicos. O próprio IPHAN mantem uma política preservacionista discutível, onde se pode demolir o casarão todo, desde que preservem apenas a fachada principal. Como o autor bem salientou em seus textos sobre o assunto, não demora e Pirenópolis será simplesmente uma cidade-cenário.

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Adriano Curado