quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Chico de Sá

SÉRIE BIOGRAFIAS

CORONEL CHICO DE SÁ


      Francisco José de Sá (Pirenópolis 29.01.1861 – 07.11.1938) foi um abastado comerciante pirenopolino, que muito contribuiu para o desenvolvimento da cidade, grande incentivador das artes e da cultura locais.

      Nasceu escravo, como sua mãe, mas foi alforriado no ato do batismo pela quantia de 32 oitavas de ouro (128 gramas)(1), paga pelo seu pai, José Joaquim de Sá, que inclusive o legitimou e o levou para casa para criá-lo. Casou, aos 25 anos, com Antônia Lina da Costa (Antoninha), com quem teve quatro filhos e seis filhas. Deixou grande descendência.

1ª missa nos Pireneus em 5.7.1928, Cel. Sá em destaque
       Chico de Sá sabia apenas ler e escrever, mas possuía um tino comercial muito forte. Então, com uma pequena quantia adquirida como pagamento por viagens feitas a terceiros, começou a negociar na compra e venda de fumo e gado. Aprendeu rapidamente as “manhas” do ofício e logo obteve considerável lucro. Adquiriu tropas de mulas para transporte de mercadorias para fora de Goiás e começou a investir em terras e na construção civil. Há em Pirenópolis, até hoje, diversos casarões edificados por Chico de Sá. 

     Com o tempo, tornou-se ele uma espécie de banco particular na cidade, com empréstimos a juros. Seus negócios cresceram tanto que ele abriu uma filial de sua loja em Palmeiras de Goiás e a entregou para gerência do irmão legítimo Horácio Alfredo de Sá, a quem amparou. Quando faleceu, era o homem mais rico de Pirenópolis, o maior proprietário urbano e rural do Município, com respeitável rebanho bovino. Deixou aos seus herdeiros muito dinheiro, joias e títulos.

      Esse homem tem uma biografia extraordinária, pois nasceu afundado na adversidade – negro, filho ilegítimo, baixo, gordo, barrigudo, feio, gago, semianalfabeto – mas ainda assim conseguiu fazer fortuna e galgar incomparável posição social, financeira e política em Pirenópolis e também em Goiás.


Cel. Sá, em 1º plano numa mula, e seu eleitorado rural, 19.9.1923

      Com tamanho patrimônio, investiu em sua maior paixão – a política. Foi vereador de 1887 a 1889, ainda no Império. Na República, foi vereador de 1893 a 1895, de 1911 a 1915 e de 1915 a 1919. Só não foi intendente municipal (hoje prefeito) ou deputado estadual porque não quis. Mas elegeu muitos intendentes, vereadores e deputados. Seu domínio sobre o eleitorado rural de Pirenópolis perdurou por décadas, e há até um registro fotográfico, feito em 19.9.1923, quando em dia de eleição ele adentra pelo Largo da Matriz com seu eleitores moradores das fazendas.

      Construiu o maior casarão de Pirenópolis à época, no Largo do Rosário, local onde muitas vezes se decidiu os rumos da política na província de Goiás.

Festa do Cel. Sá em 1917, tendo sua casa à direita

      Foi sorteado Imperador do Divino em 1917, 1933 e 1937. A festa de 1917 foi a maior de que se tem notícia em Pirenópolis. Durante os dias de novena e das Cavalhadas, a cidade toda comeu empadões, pastéis, doces finos, quitandas e bebeu muito vinho à custa do Coronel Sal. Nunca se queimaram tantos foguetes de rabo e as roqueiras e pichorras deixaram o Largo da Matriz e do Rosário completamente esburacados.
      Apesar de muito rico, era querido e admirado pelos pirenopolinos, pois a caridade sempre foi sua marca. Graças às suas generosas doações, muitos conterrâneos seus puderam estudar nos seminários e conventos do Rio de Janeiro e São Paulo, um sonho dificílimo para a época. Também ajudou a manter restauradas as igrejas de Pirenópolis, incentivou o teatro e outras artes, ajudou na manutenção das bandas de música Fênix e Euterpe etc.

Casarão onde morou o Cel. Sá


      Quando o coronel Sá faleceu, em 07.11.1938, Pirenópolis muito se entristeceu, pois perdia uma figura forte de sua história. Seu enterro foi com grande pompa, acompanhado por uma multidão, ao som de banda de música e orações da Irmandade do Santíssimo Sacramento, da qual fazia parte.

      Pelo seu exemplo incomum de luta contra as adversidades e pela salutar ajuda ao desenvolvimento de Pirenópolis e à melhoria de vida de sua gente, o Coronel Chico de Sá merece figurar entre nossos biografados.

Adriano César Curado

Fonte:
(1) Livro de Registro de Batismos da Matriz, de 1857 a 1867, fls. 63)
JAYME, Jarbas. Famílias pirenopolinas – Vol. V. Goiânia: UFG, 1973.
JAYME, José Sisenando. Pirenópolis (humorismo e folclore). Edição do Autor: 1983.

22 comentários:

  1. Parabens Adriano, sou bisneta deste homem, sempre ouvi as historias e os causos que meu pai, tios etc...contava, fiquei muito feliz de ver a biografia neste blog.
    Obrigada em nome de toda a familia.
    Abracos
    Gloria

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  2. Caríssimo confrade Adriano, parabéns pela iniciativa e pelo resgate histórico de Pirenópolis!!

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  3. A história do coronel Chico de Sá é das mais impressionantes que conheço.

    Um homem preto, pobre e feio, que soube dar a volta por cima e vencer na vida.

    E ainda socorreu seus irmãos brancos.

    É de tirar o chapeu para um homem desses.

    Que exemplo, meu Deus!

    Parabéns pela iniciativa, grande escritor!

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  4. Adriano, você está de parabéns, excelente biografia do nosso bisavô Chico de Sá. Esta iniciativa lhe engrandece ainda mais e também à nossa Pirenópolis. PARABÉNS!!!!!
    Anilzene

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  5. Olá....esse é meu tataravô, e como minha TIa Glória falou acima, nós sempre ouvíamos falar dele e tivemos orgulho de ser descendente dele, não pelo $$$, pois todo se foi, mas pela garra de fazer acontecer.

    Agora q eu vi quem escreveu a notícia, o Adriano..... olha quero te dizer que quem perde a blusa de uma pessoa numa festa do Morro da vida não prescreve nunca....hahahhahahahaha, vou me inscrever no seu blog.
    Abs

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  6. Nós, descendentes de Chico de Sá, agradecemos a publicação da sua biografia. É uma grande satisfação ter sangue de negro correndo em nossas veias. Ele , Chico de Sá, é exemplo de que os preconceitos são infundados, injustos... Parabéns, bisavô querido!!! Gostaria muito de tê-lo conhecido...

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  7. Dá até gosto de dizer que nossos ancestrais foram pessoas de bem, motivo do nosso orgulho.

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  8. Feliz do povo que sabe exaltar os feitos dos grandes homens...!

    Essa biografia realmente me abalou.

    Às vezes reclamo de tantas coisas na vida, bobagens facilmente superáveis, enquanto que tantos por aí não têm nem metade do que possuo.

    E agora leio a história de um ser humano que nasceu nas pires condições, mas soube superar tudo e vencer.

    Meus parabéns por esta postagem.

    Beijos no seu lindo coração.

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  9. É muito bom ouvir suas histórias, conhecer a biografia de homens e mulheres maravilhosos, como esse Chico de Sá.

    Parabéns por esta obra de arte.

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  10. Que gracinha essa sua postagem...!

    Esse coronal parece que foi um grande vulto da história brasileira. Se você não posta sua história aqui, eu, por exemplo, nunca o conheceria.

    Meus parabéns pela iniciativa.

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  11. Parabéns por mais essa contribuição à memória dos grandes vultos pirenopolinos. Com sua permissão, acrescentarei esta às biografias de meu site, com os devidos créditos e link. Mauro

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  12. Sem memória, não há futuro em uma nação.

    Parabéns, escritor.

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  13. Feliz daqueles que fizeram por merecer que sua biografia seja contada e comentada!

    No casa do coronel, veja que já se passaram mais de setenta anos da sua morte, mas ele ainda é tão amado e venerado.

    Parabéns a você pela iniciativa singular.

    Seu blog é uma joia rara.

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  14. Você escreve bem as biografias deste site. Isso engrandece o homenageado e ainda contribui para torná-lo conhecido no mundo todo.

    Meus parabéns pela iniciativa.

    Sobre esse coronel, parece que foi muito querido pelo pirenopolino.

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  15. João Pedro de Alencar Silva15 de fevereiro de 2012 12:59

    Esse foi um grande homem. Um homem de verdade. Pessoa que soube usar da fortuna que angariou para ajudar o próximo - e tanto isso é verdade, que quando morreu, a cidade inteira se fechou em luto. Que exemplo para os cidadãos de hoje...!

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    1. Maria Rosa de Sousa6 de março de 2012 18:57

      Os grandes homens jamais serão esquecidos.

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    2. Realmente, a biografia do Coronel Chico Sá enche de orgulho, os seus descendentes, e todos os pirenopolinos. Tive o prazer de conhecer, um bisneto dele, o dono da Pousada, Pouso Café e Cultura, Isócrates de Oliveira Júnior, que muito se orgulha, e com justa razão de descender desse ilustre cidadão.

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  16. Muito bom saber um pouco mais do meu "tataravô". Lembro de minha avó Yolanda, neta dele, contar algumas histórias, mas a sua publicação acrescentou demais!! É realmente fantástico você resgatar informações preciosas assim e registrá-las. Minha prima me encaminhou e agora encaminho a vários outros da nossa família. Admirável seu trabalho! Obrigada! Alessandra de Ascenção Carvalho Almeida (neta de Yolanda Jacinto da Silva)

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  17. Muito bom saber essa historia linda, que muito me emociona do meu bisavô. Meu avô e a cara dele. Que pena que os dois já se foram... Pessoas que só fez o bem para todos e principalmente para Pirenópolis.

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  18. Olá, Adriano.
    Eu li uma tese de mestrado sobre Santa Dica na Internet, onde o mestrando nos informa que Chico de Sá fez oposição à mística de Lagolândia.
    Você conhece algo sobre isso?
    Parece que Chico de Sá e Santa Dica foram amigos, mas acabaram brigando.
    Um abraço.
    Mauro Quintella
    Brasília, DF

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  19. Olá, Adriano.
    Pelo que sei, Chico de Sá construiu a casa onde, hoje, funciona a pousada Pouso, Café & Cultura, para o primeiro farmacêutico de Pirenópolis.
    Você conhece algo a respeito?
    Um abraço.
    Mauro Quintella
    Brasília, DF

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