quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Dr. Fernando

SÉRIE BIOGRAFIAS

FRANCISCO FERNANDES DA SILVA
(DR. FERNANDO)
Dr. Fernando

    Francisco Fernandes da Silva (Campo Grande/MS, 22.07.1934 – Goiânia/GO, 27.11.1992) foi um renomado dentista em Pirenópolis, agropecuarista modelo, funcionário dos Correios, ex-Secretário Municipal de Saúde, ex-Presidente do Lions Clube em Pirenópolis.

Desfile do Lions Clube de Pirenópolis - década de 1960

    Mudou-se ainda criança para Goiânia, onde o pai trabalhou como pedreiro e construiu o Lago das Rosas na florescente capital. Casou-se com Edna Sousa Fernandes (3.4.1944 – 8.12.1999) e teve três filhos, Marcelo, Márcia e Mércia, todos casados e com sucessão. Com muito esforço e sacrifício, cursou odontologia na Universidade Federal de Goiás. 

Arrecadação do Lions Clube, tendo Dr. Fernando ao centro

    Após a formatura, no exercício da função de funcionário concursado dos Correios, foi designado para a cidade de Pirenópolis, no ano de 1963, indo morar no recém-construído sobrado no Largo da Matriz. Apaixonou-se pela cidade e nunca mais foi embora. Durante aproximadamente dez anos foi agente dos Correios local, mas em meados da década de 1970, após ordem de transferência para outra cidade, viu-se forçado a se demitir para não mudar de Pirenópolis.
 
Dr. Fernando na juventude

    Com a finalidade de fincar raízes de vez na cidade, comprou uma fazenda, que foi considerada modelo por conta da instalação de um biodigestor. A aparelhagem usava apenas esterco de gado e água, e a queima do material orgânico servia de barata fonte de energia elétrica.
 
Dr. Fernando, à direita, recepciona o governador Otávio Lage, em Pirenópolis, na década de 1960

    Devido à sua origem humilde, Dr. Fernando ajudou bastante a população mais pobre de Pirenópolis. 
 
Desfile do Lions Clube de Pirenópolis - década de 1960

    Primeiramente, na função de presidente do Lions Clube em Pirenópolis, quando organizava, entre muitos outros trabalhos sociais, uma trabalhosa mas bem sucedida campanha de arrecadação de doações para o Natal dos necessitados. 
 
Dr. Fernando, em 21.5.1972, trabalha em festival de chopp do Lions Clube
    Posteriormente, através das ações como Secretário Municipal de Saúde, cargo que ocupou no primeiro governo de Sizenando Jayme Filho (1982-1988), quando saía pioneiramente para os povoados, juntamente com um médico e mais equipe, dentro duma Kombi, para levar saúde aos povoados. Não se tinha o hábito de tal prática na época, nem existiam postos de saúde para atendimento emergencial, ficando a população mais distante dependente dos precários transportes de socorro ou se submetendo a tratamento com benzeduras e ervas dos curandeiros.
 
Dr. Fernando e a esposa em baile de Carnaval
    Sua contribuição para a melhoria da qualidade de vida da população também se deu através do trabalho no Sindicado Rural de Pirenópolis, como dentista eficiente e disputado, que funcionava à época no casarão que hoje pertence aos herdeiros de Valter Jayme, no Largo da Matriz.
 
Desfile do Lions Clube de Pirenópolis - década de 1960
    Dr. Fernando foi um dentista “de mão cheia”. Seu consultório particular funcionou por muitas décadas em sua residência, na Rua Direita, imóvel comprado de Edgar Jayme. Certamente que quase todo pirenopolino com mais de trinta anos já teve obturações desse excelente profissional. Eu mesmo ainda tenho algumas, sólidas e eficientes, apesar de tanto tempo transcorrido. Recordo-me da longa fila, pela calçada a Rua Direita, que começava a se formar no início da tarde, composta por sua clientela cativa. Depois a gente subia os quatro degraus que davam direito a sentar num banco de couro e todo mundo ficava olhando para uma divisória de vidro fosco, tentando adivinhar os contornos do dentista e do cliente sentado lá na cadeira. Entre quatro ou cinco atendimentos, Dr. Fernando fazia breve pausa, acendia um cigarro, brincava com o nosso pânico, dava duas tragadas e depois se asseava com minúcia – por isso minha maior lembrança dele era o cheiro de suas mãos, um misto de cigarro com sabonete.
 
Desfile do Lions Clube de Pirenópolis - década de 1960
 
    Dr. Fernando era um homem jovial, brincalhão e cheio de amigos. Amava a pescaria em grandes rios e lagos. Gostava também dos bailes de Carnaval, que naquela época ocorriam no Salão Paroquial (Praça Central) e depois no Praia Clube (hoje Fórum, na Rua Direita) e eram organizados por disputados blocos.
 
Dr. Fernando, em 21.5.1972, trabalha em festival de chopp do Lions Clube
    Morreu muito jovem, aos 58 anos, vítima de um infarto e de complicações pulmonares. Mas algum tempo antes já se encontrava depressivo porque, devido às complicações de uma cirurgia mal sucedida de catarata, perdeu uma visão e ficou incapacitado para o exercício do ofício de dentista.
 
Parada cívica na década de 1960

    Dr. Fernando merece figurar entres nossos biografados devido à sua atuação em prol dos menos favorecidos, da luta por diminuir as desigualdades sociais, pelo amparo na área da saúde aos esquecidos moradores da zona rural. Era um homem honesto, de procedimento sempre correto, excelente profissional, e mácula alguma há em sua biografia.
    Bem poderia ter se mudado para Pirenópolis e apenas se preocupado com a própria vida, como fazem tantos nos dias atuais. Mas preferiu arregaçar as mangas, dedicar o curto tempo às cansativas atividades do Lions Clube, ajudando tanta gente a ter uma vida melhor.
 
A escada, em primeiro plano, dava para o gabinete de Dr. Fernando


    Fonte de pesquisa:

•    Entrevista com Marcelo Sousa Fernandes, filho do biografado, em janeiro de 2012.
•    Entrevista com Maria Jayme de Siqueira Pina, em janeiro de 2012.
•    Recordações de minha própria infância.
•    CARVALHO, Adelmo de. Pirenópolis Coletânea 1727-2000. História, Turismo e Curiosidades. Goiânia: Kelps, 2001.





Postagem de Adriano César Curado

36 comentários:

  1. Caríssimo escritor Adriano Curado, o biografado Dr. Fernando foi parte daquela pequena parcela da sociedade que faz a diferença.


    Como você bem retratou no texto, ele bem que poderia ter cuidado somente da própria vida, dedicado-se à família e ao trabalho como dentista. Mas resolveu deixar a tranquilidade do lar para melhorar o mundo lá fora.


    É admirável isso, principalmente nos dias atuais em que vivemos. Hoje a grande maioria das pessoas são egoístas e sossegadas, só querem saber do próprio bem-estar e não estão nem aí para o social. Prefere-se agora ficar em casa assistindo a novela das 9, o Big Brother, os programinhas bobos de auditório.


    Voltando ao Dr. Fernando, eu tiro o chapéu para quem se filia a uma instituição benemérita como o Lions Clube, cansativo, trabalhosa e nem sempre compreendida. E é pelo doação de si aos demais, que essa figura sensacional mereceu de você figurar no rol de biografados do blog.


    Meus parabéns pela feliz iniciativa.

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  2. Nossa, esse homem fez tudo isso e ainda achou tempo para ser um grande dentista? Acho que isso foi possível porque naquela época (décadas de 60 e 70) sobrava mais tempo, que hoje a televisão toma da gente. De qualquer maneira, ele podia ter ficado em casa à toa, mas ajudou seu próximo. Deus já lhe deu, com certeza, um espaço lá no paraíso.

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  3. Gosto deste seu blog porque ele fala de fatos e pessoas que ninguém mais conhece. Se não fosse por você, por exemplo, eu nunca conheceria esses biografados. E a leitura da vida deles é um exemplo para a gente, são pessoas que fizeram ver porque vieram ao mundo. Meus parabéns pela bela biografia de hoje.

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  4. Adriano, muito boa essa matéria a respeito do dr. Fernando. O Chico Fernandes. Eu fui cliente dele por algum tempo. Era dentista bom, atencioso, tratava a gente bem e parcelava a conta. O consultório dele ficava na escada do lado da butique da dona Lais de Zé Barbeiro. De tarde, é como você descreveu mesmo, ficava todo mundo em fila e era um alívio subir aquela escada e poder sentar. Dessas histórias já vão mais de trinta anos. Nossa, como o tempo passa! Fiquei emocionada com seu texto porque relembrei da minha juventude. Meus parabéns para você.

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  5. Adalberto Martins Sampaio3 de fevereiro de 2012 17:31

    Grande homem foi esse Fernando Dentista. Sua ajuda para Pirenópolis é inestimável e ele deixou bastante saudade. Hoje fazem falta homens assim, que se interessam pelo social. Vivemos num tempo de gentinha sem valor, desprovida de brilho e requinte.

    Meus parabéns a você pela iniciativa de levantar a vida desse grande homem.

    Forte abraço do Adalberto

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  6. Jose Mendonça Teles3 de fevereiro de 2012 20:54

    Meu caro Adriano, parabens pela biografia do Dr.Fernando.Você é grande defensor e divulgador da memória pirenopolina.

    Abraço saudoso do amigo JMT.

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  7. Será que hoje em dia ainda tem gente boa assim, que se doa dessa maneira, que abre mão do individual em prol do coletivo? Deve ter, sim, mas é pouca gente. Hoje é cada um por si e Deus por todos. Ninguém estende mais a mão aos próximo, deixa correr frouxo. Gostei desse Dr. Fernando, de cabecinha branca, bonzinho, parecendo avô da gente que já morreu.

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  8. Hoje não tem mais Drs. Fernandos por aí porque tudo é de faz-de-conta no Brasil. Ele foi um secretário de saúde que arregaçou as mangas e pôs os pés na estrada, literalmente. Não se contentou em ficar dentro do gabinete, como acontece com todos os gestores públicos na atualidade. Onde já se viu, hoje, secretário sair para o interior, preocupado com o povo?! Nem em sonho! Querem mais é embolsar o salários que recebem e mais o “por fora”, que para essa gente não há dinheiro público que chegue.


    Adriano, você deveria mandar esse seu texto para os Congresso Nacional, as assembleias legislativas, as câmaras de vereadores, para ver se nossos políticos se emendam.


    Parabéns por retratar tão bem a obra de uma vida de um magnífico homem!

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  9. Que posso lhe dizer sobre o biografado de hoje? Não o conheci pessoalmente, mas sua história vale bem um livro. Bons exemplos têm sempre que ser incentivados, para servir de parâmetro às gerações futuras. O Brasil de ontem como suporte para o de amanhã, porque o “hoje” já está irremediavelmente perdido. Excelente e feliz postagem. Minhas congratulações.

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  10. Esse homem é que deveria estar vivo e ser o prefeito de Piri.

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  11. Estamos hoje tão carentes de bons homens, de pessoas dedicadas ao que fazem, preocupadas com a criação de um mundo melhor! Esse dr. Fernando mostrou a que veio e é por isso que estamos todos aqui hoje comentando sobre a história da sua vida.

    A pergunta que faço é: e nós, estamos fazendo por merecer uma atenção assim no futuro? Nossos filhos se orgulharão de nós?

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    1. Concordo com a Lilian,as pessoas ficam pensando nelas mesmas o tempo.ACORDA POVO!!!

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    2. Concordo com a Lilian,as pessoas ficam pensando nelas mesmas o tempo todo.ACORDA MEU POVO!!!OXE!

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    3. Também concordo com a Lilian, precisamos parar de ser tão egoístas e arregaçar as mangas, como o biografado.

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  12. Excelente postagem, texto enxuto e bem escrito, que consegue formar uma boa visualização do biografado.

    Meus parabéns.

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  13. Raquel Curado Fernandes13 de fevereiro de 2012 12:57

    Caramba! Eu não sabia que meu avô tinha feito tantas coisas. Não tive oportunidade de conhecer ele mas deu para ver que ele era um grande homem. Parabéns tio, a biografia ficou demais.

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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  15. Este comentário foi removido pelo autor.

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  16. Que é a história de um homem, senão o amontoado de sementes que ele espalhou pelo mundo? E apenas os grande semeadores, aqueles que esparramaram benesses pelos mais distantes rincões de sua aldeia, merecem biografias. Esse Dr. Fernando, pessoa que não conheci, foi realmente digno de que você escrevesse sobre ele. Eu fico satisfeita em abrir a página e poder ler uma história de vida tão grandiosa e intensa. Acho que ele morreu assim moço porque viveu rápido o que tinha que viver, cumpriu com maestria a missão que Deus lhe confiou e então tornou-se desnecessário entre os homens. Foi labutar em outras missões divinas.

    Caro poeta, parabéns pela peculiar postagem, você me emocionou. E olha que nem conhecia o biografado. Mas agora conheço-o e vou orar pela sua jornada espiritual.

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    1. Concordo com a Miriam. Uma biografia vale a pena quando resume a vida de alguém que espalhou a benesse por aí.

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    2. José Fabiano do Amaral29 de fevereiro de 2012 10:08

      Nossa história é feita de bons e maus exemplos, mas apenas os bons prevalecerão. Linda biografia.

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    3. Tempinho bão esse que não volta mais...!

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  17. Meu avô sempre esteve em minha lista de pessoas-que-fizeram-a-diferença, embora eu não tenha tido tempo de conviver com ele. Tio, obrigada por contar essa história, agora conheço detalhes da tragetória deste homem, cuja fama permanece viva.
    Mais uma vez reforço o "conselho": Pirenópolis precisa de um arquivo deste porte! Essas biografias precisam ser publicadas! rs.

    Thamyris Fernandes (em Pirenópolis: "neta do Dr. Fernando")

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    1. Nossa, deve mesmo ser massa demais ter um avô assim.

      Estou adorando este blog porque traz informações que a gente não encontra em nenhum outro lugar.

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  18. Oa grandes feitos dos grandes homens nos fazem melhores pelo exemplo dado!

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    1. Mas hoje em dia são tão poucos os grandes homens...!

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  19. Parabens, o Dr. Fernando foi o melhor odontologo que eu ja conheci na minha vida, e olha que ja passei por varios. Um grande homem.

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  20. Marcelino Batista5 de julho de 2012 16:06

    Esse homem ficou na história de Pirenópolis pelas grandes amizades que conquistou e pelo carisma que era em pessoa. Ficou muito boa a história dele. Parabéns.

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  21. Fico feliz quando leio histórias de grandes e bons homens, porque o Brasil de hoje está carente deles. É mesmo uma pena que pessoas assim tenham que morrer tão cedo, elas poderiam legar mais ações boas para melhorar a humanidade.

    Linda a biografia do Dr. Fernando. Meus parabéns.

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  22. Joana Machado da Silva19 de setembro de 2012 16:47

    Esse homem, o Dr. Fernando, tinha um coração muito generoso e por isso Deus já deve ter lhe dado o Reino do Céu. Lá em casa papai tinha oito filho pequenos, todos comedores de rapadura, e nem é preciso contar que era cárie para tudo quanto é lado. Então papai levava a gente pro Dr. Fernando cuidar. Imagine o tamanho da conta. Meus pai pedia um prazo para vender uma criação e poder quitar. O saudoso dentista, então, anotava num fichário e quando papai retornava, meses depois, ele cobrava só metade. E quanto o serviço era pequeno, perdoava a dívida, embora meu pai protestasse. Na verdade, Dr. Fernando sabia que papai não tinha o dinheiro e por causa dele nunca faltou comida na mesa lá de casa. Eu precisava contar isso aqui em homenagem a ele.

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  23. Joana Machado, eu como filho do Dr. Fernando fico muito contente em saber de uma história assim. Parabenizo-te pela homenagem ao meu pai. Muito obrigado.

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  24. Pesquisando sobre o famoso e extinto Vai e Vem da Rua Direita (alguém tem alguma informação?? ), me deparei com essa postagem do Adriano Curado.
    Lembrei de quando ia no consultório do Dr. Fernando, e ganhava umas "bolinhas " de metal (amalgama), ele dava as crianças que se comportavam, eu brincava por horas com elas, rs
    Boas Recordações!

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  25. Chico, que surpresa boa encontrar por acaso uma homenagem a você. Logo você, meu amigo, que tanto gostava de ajudar as pessoas. Fiquei satisfeito em saber que sua memória não foi esquecida. Grata recordação de um tempinho bom que não volta nunca mais.

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  26. Era um homem bom e exemplar, desses que deixam saudades na gente. Bela biografia, parabéns, Adriano Curado.

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  27. Nossos grandes amigos foram o Fernando e a Edna. Dois maravilhosos Natais passamos com eles e seus filhos em Pirenópolis. Chegamos a conhecer a linda fazenda que possuíam. Diversas vezes recepcionamos eles aquii em Campinas. Um grande abraços a seus filhos e netos. Emerson e Izabel

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  28. O doutor Fernando também foi um excelente professor, na década de 70 ele era titular da disciplina "Programa de Saúde" no Colégio Nossa Senhora do Carmo / Pirenópolis - GO. Eu tive a honra de ser aluno e paciente deste competente profissional.

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