sábado, 15 de março de 2014

Maria Fleury


SÉRIE BIOGRAFIAS
MARIA FLEURY







Maria Fleury (Pirenópolis 08.11.1920 – 06.06.1984.) foi pintora, escultura, professora e artesã.

Era filha de Benedita d'Abadia Siqueira (Beni) e de Luiz Perilo Lobo Fleury. Nasceu na Fazenda Santa Rita, Município de Pirenópolis, Goiás, que pertencia ao seu pai Luiz Perilo Lobo Fleury. Passou a se chamar Maria de Beni por conta do apelido da mãe, como é costume ainda hoje no interior.



Quando criança, ainda morando na fazenda onde nasceu, ela descascava mandioca com um canivete e esculpia pequenos animais, rostos. Chegou até a criar um presépio completo. Depois se aprimorou, passou a trabalhar com argila e madeira. Fez diversas imagens em cedro, como São Francisco e Nossa Senhora Santana.

Ela trabalhava dura na terra, era uma peoa do pai, e cuidava até do gado. Na fazenda, Maria se casou e teve dois filhos: José Antônio Fleury Lopes e Fátima Maria Fleury. Foi forçada a se mudar para a cidade, pois o filho adoeceu, contraiu meningite, e necessitava de cuidados constantes. Mais tarde, seus pais perderam a fazenda numa transação comercial malsucedida e foram morar com a filha em Pirenópolis. A família estava sem dinheiro e Maria começou a lecionar para sustentar os filhos e os pais.



Segundo sua filha Fátima, Maria disse: “Tenho esse dom, vou lançar mão dele para complementar a renda familiar.” Ela lecionava na zona rural e fazia os trabalhos artesanais à noite. À época, apenas Maria Fleury e Natércia Siqueira Fleury consertavam os santos quebrados ou desgastados pelo tempo. As pessoas diziam: “Vou levar meu santo para Maria de Beni encarnar.” O santo chegava estragado e saia novo.

Começou também a fazer pintura em tecido. Na década de 1960, as moças usavam lenços com pintura na parte de trás, e ela pintava as encomendas com temas variados: rostos, flores etc. Quando chegaram os primeiros fogões a gás, ele teve a ideia de enfeitar as capas de botijões. Desenhava uma baiana numa tábua, serrava, pintava, e o botijão era o corpo onde vistiam uma saia.

Maria de Beni confeccionava as vestimentas dos cavaleiros de Cavalhadas, tal qual faziam dona Veronquinha e Natércia de Siqueira. Maria vestiu Ataliba por muitas Cavalhadas, e também pintou as lanças para o cavaleiro Joviano. Nessas atividades era auxiliada por sua filha Fátima. Sua arte também era aplicada em duas difíceis peças da vestimenta dos cavaleiros de Cavalhadas: a cachaceira (enfeita que vai sobre a clina do cavalo) e a rabeira (uma espécie de círculo enfeitados que se coloca na anca da montaria). 


Segundo ainda Fátima, o Olímpio Jayme foi quem muito valorizou o trabalho de Maria de Beni. Ele encomendou a primeira cavalhada em miniatura. Mandou fazer o campo, com os pequenos camarotes em redor, distribuiu os cavalos e protegeu tudo numa cobertura de acrílico. Essa peça está exposta no casarão da família Jayme em Pirenópolis. De acordo ainda com Fátima: “Essa cavalhada é totalmente diferente das últimas que minha mãe fez. Esses primeiros cavaleiros eram menores e mais toscos.” A partir dessa primeira encomenda, Maria começou a reproduzir o folclore pirenopolino. Como já costurava as vestimentas dos cavaleiros passou a confeccionar roupas em miniatura para suas estatuetas.

O tamanho dos cavaleiros era no palmo da mão de Maria, com essa medida ela tirava o cumprimento e a altura. Sobre uma base de madeira, fazia metade da peça, depois a outra, que ficavam inicialmente toscos, e só então ela esculpia o cavalinho, dava as formas para ele. Passava horas no delicado trabalho de acertar a peça com um canivete, assoprava, raspava de novo. Depois que secava, então era a hora de queimar. Ela não possuía um forno apropriado, usava o fogão a lenha. Produzia o braseiro e enfiava o cavalinho no meio. De vez em quando, escutava-se um estouro, e Maria, com paciência e zelo, procurava nas cinzas cada pedacinho que se soltava, unia tudo, reconstituía o que estava quebrado. Fazia o cavalo e “montava” o cavaleiro. Só após começava a pintar. Em seguida, com a ajuda de sua filha Fátima, costurava as roupas, e as cores usadas eram o azul ou o vermelho, o branco e o preto.

Nesse meio tempo, entre o final da década de 1960 e início de 1970, Pirenópolis começou a receber grande quantidade de turistas. Maria de Beni então viu suas encomendas multiplicarem, o sucesso de seus cavaleirinhos cresceu. Ela então possou a orientar a filha a ajudá-la para dar conta da demanda. Fátima franzia as rendas, pregava lantejoulas no desenho previamente riscado pela mãe, recortava as fitas, pintava as pequenas lanças, pintava as esporas de dourado. Por fim saía o cavaleiro pronto. Outro importante personagem das Cavalhadas de Pirenópolis, os mascarados, passaram a ser esculpidos por Maria de Beni, que inclusive produzia suas máscaras móveis. Atendeu a muitas encomendas de pequenos Divinos Espírito Santo de barro.

Maria de Beni pintou as bandeiras para imperadores da Festa do Divino, e para inovar inventou a face dupla da bandeira: de um lado o Divino, de outro a coroa. Enfeitava o entorno da bandeira com flores de papel crepom. 


Na década de 1970, não havia venda de flores em Pirenópolis. Maria então decidiu montar coroas de defunto para o Dia de Finados. Fazia coroas brancas e roxas, com as fitas pretas ou brancas e escrito em dourado o nome do morto. Tudo isso de papel crepom, brocal, arame e um produto que se chamava pão de ouro (um pó dourado ou prata, que ela dissolvia com água raz). Maria fazia a coroa completa, com flore e folhas e os dizeres pintados com brocal, e depois de prontas elas eram penduradas na sala de entrada da casa, à espera do encomendante.

Fátina conta que: “No rio de Janeiro tem o museu da arte popular, que era de um francês chamado Jackes Van de Beuque. Ele encomendou a cavalhada completa. Vinha a Pirenópolis e se hospedava na casa de mamãe com a família, tamanha a amizade. Em 2012, a cavalhadinha de Maria de Beni estava no museu nacional de Brasília numa exposição, ao lado do trabalho da artista Lunildes.”

Em 1984 suas obras foram escolhidas pela UNESCO para integrar uma exposição pela Europa. Suas peças estão na Argentina, Chile, Peru, Uruguaia. São Paulo, Rio, Portugal, Itália, e no Museu do Louvre, em Paris.

Filmou entrevista para o programa de televisão Frutos da Terra. Integrou a mostra “Os sete brasileiros em seu universo” (1974), foi a escolhida de Goiás. Sua casa era frequentada por artistas, escritores, jornalistas, colecionadores, curadores.

Maria de Beni morreu em 1984, aos 64 anos de idade, de enfisema pulmonar, embora nunca houvesse fumado, provavelmente resultado de duas pneumonias que teve quando morava numa fazenda. Estava no auge da produção artística, com inúmeras encomendas. Maria Lobo e Lunildes são suas discípulas.

Fátima, no final de sua inestimável ajuda, completa: “Em nome de minha mãe, declaro meus agradecimentos e carinho por Maria Lobo e Lunildes, por terem, com sua arte, dado continuidade ao trabalho de Maria de Beni na confecção das cavalhadas em miniatura. Sinceros agradecimentos.”

É Patrono da Cadeira XX da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música, cujo Titular é Colandi Carvalho de Oliveira.

Adriano Curado

13 comentários:

  1. Fátima Maria Fleury16 de março de 2014 12:53

    Meus sinceros agradecimentos à esse valoroso escritor pirenopolino, Adriano Curado, que tem resgatado com muito zelo e dedicação a memória de pirenopolinos valorosos de um passado distante ou recente, trazendo assim ao conhecimento do público atual a história de nossos antepassados que muito colaboraram na impressão digital da cultura pirenopolina. Esse resgate histórico é de importância ímpar para dar o conhecimento aos de hoje de todo um acervo que compõe a identidade de um povo, de um lugar. É a dedicação de um escritor preocupado em acompanhar a dinâmica da realidade sem deixar que a história se perca no tempo. Gratidão para sempre à você Adriano Curado por tudo isso e em especial pela elaboração competente da biografia de Maria Fleury (Maria de Beni), uma das pioneiras no campo das artes plásticas, da cultura popular pirenopolina e de minha mãe saudosa e inesquecível. Grande abraço!

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  2. Uma grande escultora, pessoa dotada de grande dom artístico e que estava praticamente esquecida. Agora vem este texto maravilhoso seu, Adriano, e resgata tão importante personalidade pirenopolina. Meus parabéns pela obra.

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  3. Meressidíssima homenagem parabéns.

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  4. Luiz Antônio Godinho18 de março de 2014 09:03

    Fui muitas vezes em sua casa ver seus trabalhos maravilhosos que guardo até hoje na memoria.

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  5. Thales José Jayme18 de março de 2014 09:04

    Orgulho e exemplo para todos pirenopolinos. Parabéns a ela e ao Adriano pela feliz e pioneira iniciativa.

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  6. Merecida homenagem. Grande artista. Orgulho de nossa cidade.

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  7. Leila Aparecida Chagas18 de março de 2014 09:05

    Grande e grande artista! Você e todos nós devemos nos orgulhar dela.! Parabéns pela mãe especial que você teve!

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  8. Uma verdadeira guerreira! Um exemplo a ser seguido.

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  9. Fatinha, estou emocionada por voce amiga, sempre admiriei sua mae, o trabalho dela, as lutas, agora mais ainda depois de ter lido a biografia. Realmente um orgulho para Pirenopolis, e parabens a voce tambem, que nos bastidores tambem foi e é uma artista. Beijos amiga!

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  10. José Joaquim do Nascimento18 de março de 2014 09:07

    Maria Beni, que maravilha Fatinha, mais uma vez quero te parabenizar pela mãe que vc teve, humilde, lutadora, uma grande artista pirenopolina que na sua humildade sabia expressar a sua beleza interior com seus pinceis e bisturis em sua arte; também foi uma ótima filha e tambem boa mãe. Bjs Fatinha.

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  11. Stela Freitas Martins Barroso18 de março de 2014 09:08

    Tive o privilégio de conhece-la, fina, gentil e serena. E, certamente, grande artista.

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  12. Norma Jayme Basílio.18 de março de 2014 09:08

    Maria Beni, grande mulher , grande guerreira e grande artista !!! Sua obra nos encanta a todos e nos enche de orgulho. Parabéns Fatinha pela merecida homenagem !

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