quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Bicicleta na escola


É com muita alegria que convidamos você para participar do evento de abertura do projeto “BICICLETA NA ESCOLA”.

Será uma roda de prosa de apresentação da proposta desse projeto que tem a bicicleta como protagonista na ocupação e como meio de transporte na cidade, além de uma oportunidade preciosa de diálogo sobre questões relacionadas a mobilidade humana sob a perspectiva da criança. Para tanto, contaremos com a presença da coordenadora do projeto em Pirenópolis, Larissa Cantarelli (Anjo Bike), da professora Ana Destri (idealizadora do Bicicleta na Escola na cidade de Florianópolis/SC), do arquiteto professor e mestre Fernando Chapadeiro (PUC) e do cicloativista Nelcivone Melo (coordenador do Programa de Desenvolvimento Sustentável de Goiânia).

Venha conhecer, contribuir, participar também dessa roda!

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A salvaguarda da cultura

É bem natural que um povo perca aos poucos parte de sua cultura. Surgem novos elementos que se agregam ao anterior, modificam seu conteúdo ou até o exterminam. Pode ocorrer também que uma cultura de cunho religioso se extingua porque, por exemplo, aquela parte do culto foi abolida. Neste último caso menciono uma bonita procissão em que se fechava a porta do templo e o povo cantava de fora para que a abrissem.

Mas a alteração cultural não pode existir além da conta, sob pena de asfixia e morte de todo o sistema. 

Em nossa terra há exemplos de pequenas modificações que incomodam mas não têm o poder de destruir. Cito um ritual dos cavaleiros das Cavalhadas onde o subordinado deve ir buscar o superior em sua residência, e assim respectivamente até que todos juntos vão ao encontro do rei. Desde de tempos remotos se fez assim. Mas há alguns anos modificaram isso. Agora marcam encontro nas sombras em frente da Matriz e de lá se dirigem para o campo dos embates. Coisa pouca essa mudança, provavelmente inventada para poupar cavaleiros e animais.

Imperador Geraldo de Pina coroado dentroda Matriz em 1969.
Uma alteração perigosa, no entanto, foi a proibição da Igreja Católica de que o Imperador do Divino adentrasse na Matriz com a coroa na cabeça. Essa inovação veio da tumultuada época do padre Joel de Oliveira, seu inventor, e foi homologada pela Diocese de Anápolis. Antes, muitos se lembram disso, era comum o festeiro subir coroado até o espaço a ele destinado, à direita do celebrante, e só ali, para seu conforto, caso quisesse, depositaria a coroa em um local destinado a esse fim. 

Qual o problema dessa proibição? A resposta está na constante tentativa da Igreja de intervir na parte profana da Festa do Divino. Isso vem de longa data, só que antigamente o povo era mais corajoso que hoje e não aceitava tais intervenções. A Igreja quer diminuir a influência da coroa sobre a população porque ela é uma peça entronizada (elevado ao patamar do trono, como as relíquias sagradas e os santos). Mexer na relação entre o pirenopolino e a coroa pode ser um tiro no pé porque tem forte chance de abalar para sempre a espontaneidade da festa.

Esses são apenas alguns exemplos de alterações no modo de o povo manifestar sua arte, crença etc.

Com o fim de ser a salvaguarda da cultura pirenopolina, vem aí uma nova entidade. Trata-se da Comissão Pirenopolina de Folclore (CPF), associação sem fins lucrativos que atuará ao lado da iniciativa privada e do poder público. Ela fará um levantamento de todas as manifestações folclóricas atuais e também antigas, para se descobrir o que mudou em definitivo e o que pode ainda ser reparado. Também vai registrar, para conhecimento das futuras gerações, como cada ator da manifestação apresentada age e o motivo pelo qual o faz.

Aguardemos a entidade e reflitamos sobre o que escrevi acima. São tempos difíceis para todos nós que nos preocupamos com a cultura.

Adriano Curado

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Telhados


Os telhados desses casarões se confundem, se embaralham, como se fossem um só. E quantas enredos já interpretamos, debaixo de tantas telhas, no drama da vida! E quantas histórias têm para confabular esses telhados de incontáveis anos! Eu queria ser um pássaro para sobrevoar minha terra e compor um poema para esses telhados, mas infelizmente só posso contemplá-los cá debaixo.

Adriano Curado

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O Museu do Carmo






O MUSEU DO CARMO foi inaugurado no dia 7 de outubro de 2009 e confiado à Diocese de Anápolis. Na mesma noite foi também inaugurado um improvável MUSEU DO DIVINO, museu sem acervo... Daí, aconteceu certo SURTO MUSEOLÓGICO nesta cidade.

Por quase sete anos trabahei como Diretor do Museu, acumulando os cargos de faxineiro, serviços de eletricidade e de restaurador (no que estava ao meu alcance), e porteiro (serviço agradabilíssimo: podia encontrar gente de tantos lugares deste e de outros países). O Museu até hoje já recebeu mais de 30 mil visitantes.

Amo história e arte. E sei da importância de tal serviço para a cultura e a história deste lugar e do nosso País. Por isso tentei sustentar as coisas, confiando, ingenuamente, que os “outros” estariam cuidando do que lhes compete cuidar...

Não sei se saí do Museu... ou se “fui saído”. Talvez seja “sorte” minha... não terei que participar do encerramento, talvez definitivo, de uma obra tão significativa... O acervo (com muitas peças do século XIII) está em risco na sua conservação: na temporada da seca: muita poeira vazando pelo telhado; na temporada das chuvas: umidade excessiva... goteiras/cachoeiras... Qualquer leigo no assusto deve ficar pasmo: aos zelosos técnicos do IPHAN não chegou a ideia de que um museu necessita ter forro e isolamento contra calor e vazamentos...

Quis que uma arte, a arte sacra, que tanto contribui para entender nossa história, sobrevivesse muito mais que eu... Bem, agora, tenho que cuidar de minha sobrevivência...
Agradeço a todos os que tiveram estima pelo Museu e por meu trabalho...

Francisco Figueiredo

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Caminhante no tempo



Caminhada de aventura
Por ladeiras sinuosas
Na terra dos Pireneus.
Disputadas procissões,
Foguetes e cavalhadas,
Pastorinhas no teatro,
Contra-danças e congadas.

E o rio das Almas
Contorna o Carmo,
Banha a velha gameleira,
Refresca as moças
Que brincam nas Lages
E se vai sem adeus
Pelas bandas do Taquaral.

Desce a rua do Rosário,
Sobe a rua do Lazer.
Pede mesa pra dois.
E que gostoso prazer
O chope gelado
E o petisco grelhado
Que nos vão trazer.

Solidão não existe,
Pois dalguma janela
Desses casarões,
Por certo me espera,
Debruçada no tempo,
Além duma quimera,
Minha bela alma gêmea

Adriano Curado

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Onde estão nossos móveis antigos?

Meia cômoda em pau santo estilo D. José
Se o caro leitor é uma pessoa curiosa e atenta, certamente já se perguntou sobre os móveis antigos de Pirenópolis. Por que casarões tão velhos têm móveis modernos, desses comprados em lojas de departamento, feitos de EVA (serragem colada) e de curta durabilidade? Onde estão as mobílias históricas, feitas de madeira de verdade, com entralhe sem pregos e que duravam gerações? Se você puder entrar em todas as casas do Centro Histórico, certamente que não os encontrará.

Essa foi uma questão que sempre me deixou curioso. Até que li um livro interessantíssimo intitulado: Memórias de um viajante antiquário. A partir daí tudo se esclareceu para mim. É que nas décadas de 1950/60, um antiquário (comerciante de antiguidades), andou cá pela Terra dos Pireneus e comprou o quanto pôde do nosso acervo mobiliário. E foi tudo parar em São Paulo, uma história inteira nas mãos de colecionadores.

Até santos da Igreja do Rosário dos Pretos esse antiquário comprou e enviou para a capital paulista. E que pensar das valiosíssimas imagens de Veiga Valle que ainda haviam na cidade?

Não quero criticar as pessoas que venderam, pois se o fizeram é porque lhes pertencia e assim decidiram. Azar nosso que somos de gerações posteriores e nunca mais conheceremos o adorno original dos casarões. Mas senti necessidade de registrar aqui esse episódio de nossa história para entendimento dos que se interessarem.

Adriano Curado

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Livro de memórias



"Cidade de 1727, banhada pelo famoso Rio das Almas. Lá existem todos os vestígios do que era uma boa cidade colonial. As quatro igrejas - uma delas, a do Rosário, foi demolida -, os prédios antiquíssimos, o calçamento de pedras. Tudo nos transporta a um passado longínquo. Mas o que mais chama a atenção em Meia Ponte é a riqueza da Matriz! Excelente arquitetura colonial; altares com entalhes barrocos; imagens preciosas. E as pratarias? Arrobas de prata setecentista!

Meu saudoso amigo, Prof. Jarbas Jaime diz, numa de suas magníficas obras que as pratarias da Matriz foram doação do grande homem de Meia Ponte, o fundador da imprensa goiana, Comendador Joaquim Alves de Oliveira. É provável que haja um equívoco. Jarbas Jaime, pesquisador como era, pode ter encontrado e transcrito alguma outra doação, provavelmente não referente às pratarias da Matriz. Impossível não seria; seria improvável. Toda aquela prataria é do século XVIII, e o comendador só nasceu no fim desse século. As pratas da Matriz são das épocas e dos estilos de D. João V e D. José, precedendo, de cinquenta anos, o nascimento do grande homem. Do tempo do comendador vi apenas uma naveta, mal feita, de inscrição pobre. Talvez houvesse Alves de Oliveira doado outras peças de prata que, por não serem essenciais ao culto, foram passadas a igrejas menos importantes.


Pirenópolis – cidade dos Pireneus – passou a assim chamar-se pela proximidade da serra de mesmo nome, com 1380 metros de altitude.

Conheci em Pirenópolis outro comendador, sogro do Dr. Wilson Pompêo de Pina, honesto homem que muito trabalhou em benefício das igrejas locais. A menina dos seus olhos era a capelo no alto dos Pireneus, onde todos os anos a tradição revive grande romaria. Dele comprei diversas peças da antiga Igreja do Rosário, destinando o produto da venda à ajuda na construção de um ginásio, obra em que, com zelo e dedicação, se esmerou.

Da primeira vez que fui a Pirenópolis, travei conhecimento com Dr. Sá, juiz da comarca que tentava vender uma fazenda nas bordas da cidade. Consegui que ele a alienasse ao Senhor Natan, joalheiro de São Paulo. Nasceu entre nós uma certa afinidade, e quase todas as noites nos reuníamos na residência do Prof. Jarbas, que fora chefe da Segurança Pública do governo Pedro Ludovico.

Pirenópolis estava repleta dos mais belos móveis coloniais que já vi. O palácio de Joaquim Alves de Oliveira fora demolido em 1868. Era enorme. Saint-Hilaire o descreve e ao engenho São Joaquim como propriedades-modelo, afirmando ser o comendador o homem mais rico do Brasil Central. Permanecem na cidade todos os móveis de seu palácio.

Belíssima peça do comendador, vendi-a ao grande colecionador Sr. Hélio de Almeida Leite: estante para livros “D. João V”. Muitas outras residências ricas também existiram e algumas ainda existem. Lembro-me de que frente à residência do Prof. Jarbas havia uma bonita casa colonial, cujas janelas permaneciam sempre abertas. Vendo um belo exemplar de mesa holandesa, pé-de-lira, abeirei-me da dona da casa, comprei a mesa e trouxe-a para São Paulo. O Dr. João Marino foi quem a adquiriu.

Comprei, ainda, alguns bancos “de orelha”, com babados na parte inferior, bem como duas magníficas mesas de encosto. 

As principais famílias possuíam copos e salvas de prata. As candeias de azeite, latonadas, constituíam outro utensílio que por toda a parte se encontrava.

No século passado, havia na cidade um santeiro que fora eleito deputado provincial. Mudou-se para a capital, mas, anos depois, desiludido da política, voltou à (...) à antiga profissão: era o escultor Veiga Vale. Visitando Meia Ponte, o bispo de Goiás, D. Ponce de León, frente à casa do escultor “esbarrou” com um Menino Jesus. Impressionadíssimo, ajoelhou-se diante da bela imagem; mais tarde, levou-a para o Vaticano.

Comprei diversas imagens de Veiga Vale. Pode-se dizer que era um “especialista” em Menino Jesus. Nas peanhas das imagens que confeccionava, existiam sempre quatro “pompons” pendurados. As Madonas, de impecável face, são muito bem cuidadas.

Obtive, numa só rua, três mesas pé-de-lira. Uma delas, com losangos laterais nas gavetas, está com o Dr. Júlio Kieffer. Outra, vendi-a ao meu distinto amigo Dr. Linneu de Camargo Schutzer. A última está com a Sra. D. Catarina, fabricante de abajures.


Travei conhecimento com os irmãos Pompêo de Pina: Benedito e Wilson Braz, aristocratas estimadíssimos na cidade. Ajudaram-me bastante. Em minha ausência adquiriam, nas fazendas e na cidade, peças interessantes.

Outros dois irmãos que me venderam muita coisa foram os Curado. Um, médico; o outro negociante. Deste último obtive bela papeleira. Compraziam-se em contar (...) do General Joaquim Xavier Curado, herói das lutas do Prata e Ministro da Guerra de D. Pedro I. Não se esqueceram de contar que o general, falecido no Rio, fora enterrado com suntuosas pompas e grandes honras.

Fui a Pirenópolis mais de dez vezes . Numa delas comprei um “monte” de entalhes que estava depositado na sacristia da Matriz. O velho comendador, que tomava conta de tudo, reuniu a “irmandade dos homens pardos de nossa Senhora do Rosário” e, na reunião foi autorizada a venda, evento registrado em ata. O tesoureiro da Irmandade recebeu o pagamento e firmou recibo.

Instrui um carpinteiro para que providenciasse madeira e executasse as embalagens. Na hora da saída do caminhão, surgiu o prefeito municipal, (que era da família Pina) e embargou a venda. Procurei o juiz da comarca e este, examinando os documentos que tinha em mãos, disse-me que garantiria a saída dos objetos através da polícia. Saí eufórico, mas a alegria não durou, pois o vigário, informou-me que tanto o Prof. Jarbas Jaime como os irmãos Curado eram frontalmente contrários ao negócio. Preferi devolver as mercadorias e fui prontamente reembolsado. Os Curado, fazendo jus à sua aristocrática origem, espontaneamente me ressarciram das despesas feitas.

Há vinte e poucos anos fui a Pirenópolis com a finalidade específica de adquirir duas arcas de valores. Encontrei, no convento das freiras, alguns entalhes da velha Igreja do Rosário, os mesmos que já comprara e não pudera trazer.

A mais bela de todas as imagens que pertencera àquela igreja, adquiriu-a o Sr. Renzo Pagliari , em 1959. Nesta ocasião, adquiri do Prof. Jarbas uma excelente cômoda “D. José”, que transferi ao Sr. Hélio de Almeida Leite; hoje, esta peça decora o Palácio do Governo de São Paulo.

Assisti diversas vezes às “Pastorinhas”, tradicional espetáculo de Pernambuco transportado para os Pireneus. Vi também a famosa “Cavalhada”. Uma e outra merecem elogios. Conhecida escultora especializou-se em reproduzir tais “cavalhadas” em peças de barro.
Há tantos anos que não vou a Pirenópolis... Que saudade da pensão do Juanito Jaime... dos amigos que já se foram, do Benedito Pompêo de Pina, do Prof. Jarbas, do velho amigo Benjamim Goulão, primo de Dom Aquino Correia, de tantos outros..."

Fonte: NÓBREGA, José Claudino da. Memórias de um viajante antiquário. São Paulo: Raízes. 1984, p. 91-92.


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O Largo da Matriz

No largo, da esquerda para a direita: casarão de José de Pina, Pensão Central, a barriguda, o atual Rex Hotel, o teatro e o casarão onde nasceram os patriarcas da família Jayme e Sá.


As cidades históricas goianas geralmente cresciam em volta de um largo (área urbana espaçosa na junção de ruas), onde havia templos, repartições públicas, casas dos coronéis, e por aí vai. Ali aconteciam as festas, profanas ou religiosas, as manifestações políticas, além de servir de referencial para os recém-chegados.
A Igreja Matriz se destaca soberana ao centro do largo.


A Cidade de Goiás tem ainda hoje vários largos, como o do Chafariz, que cito por ser o mais famoso. Igualmente em Corumbá de Goiás, nossa vizinha irmã, existem na atualidade largos que sobreviveram às ambições imobiliárias dos gananciosos.



Na Cidade de Goiás, a beira rio também era um largo.


Até a década de 1960, existia em Pirenópolis um largo imenso que circundava a igreja Matriz, ia desde o início da rua do Rosário até a rua Nova. Por conta da grandiosidade desse largo, o grande templo se destacava isolado e nenhuma construção lhe tirava o brilho. Era óbvio que a Matriz ali está por conta de cálculos bem feitos, que a situaram em local de perfeita visibilidade. Por exemplo, quem a olha do início da rua do Rosário tem a impressão de que ela é bem maior, mas quem a vê de trás, acredita piamente que seu telhado flutua sobre a cidade baixa.



Coronel Chico de Sá, em 19.9.1923, no largo com seus eleitores.


Os antigos moradores de Meia Ponte bem que poderiam ter ali edificado, por exemplo, prédios públicos, como a velha cadeia. Mas não o fizeram. Pelo contrario, demarcaram o limite de suas construções de forma a preservar o entorno da Matriz. Eram muito sábios esses velhos habitantes herdeiros dos bandeirantes!




Largo intacto na praça do Chafariz, na Cidade de Goiás.


No fundo da Matriz corriam-se Cavalhadas, e os camarotes eram dispostos em torno do terreno amplo e plano, da casa de Sansa Lopes até à de José Abadia de Pina. Quem viveu naquela época conta da boa impressão que dava ver os camarotes enfeitados de panos de chita coloridos, cobertos com folha de buriti e emoldurado pelas torres da Matriz.




Encenação das Cavalhadas no largo, 
e ao fundo vê-se o cajazeiro e a barriguda.


Mas nem só para encenação das Cavalhadas servia o largo. Também ali se deram ruidosas manifestações políticas, como bem salienta Jarbas Jayme, ao comentar a famosa fotografia do coronel Chico de Sá cercado de cavaleiros: “No tempo das eleições 'a bico de pena' e dos quartéis de eleitores. A fotografia é de 19.9.1923, véspera do renhido pleito municipal, de que saiu vitoriosa a chapa encabeçada por José Ribeiro Forzani (Zeco totó), para intendente municipal. (…) A foto registra a histórica entrada na cidade, às vésperas do pleito, às 15 horas, do coronel Francisco José de Sá (cel. Chico de Sá), à frente de seu eleitorado rural. O coronel Sá é o cavaleiro do centro, à frente. De pé, à direita, o coronel Félix Jayme, líder político vitorioso, chefe da corrente caiadista, então no poder e que só foi apeada pela revolução de 30.” (Famílias Pirenopolinas, vol. IV. p. 414)



Largo preservado na cidade de Corumbá de Goiás.


Também não foi por acaso que Sebastião Pompêo de Pina escolheu o largo para a construção do prédio do teatro. Por ser um espaço de importantes manifestações culturais e religiosas da cidade, ali era o sítio perfeito para a encenação das peças teatrais.




Tronco do centenário cajazeiro no largo da Matriz.

Duas outras peças históricas existentes no largo da Matriz eram os centenários cajazeiro e barriguda, que serviram de sombra para muitas gerações. Ficavam entre o casarão de José Abadia de Pina e a Pensão Central. E quando nesta pensão havia uma rodoviária, os passageiros aguardavam os ônibus sob suas copas frondosas. As duas árvores foram derrubadas para a construção da avenida Joaquim Alves, no mandato do prefeito Emmanuel Jayme Lopes, mas continuaram na lembrança dos pirenopolinos mais velhos.



Encenação das Cavalhadas antigas no largo, 
e ao fundo vê-se a linda imagem da 
Matriz em contraste com o horizonte.


Infelizmente não conheci o velho largo da Matriz. Nasci muitos anos depois da sua destruição. Mas quando converso com moradores antigos sobre o lugar, sinto uma certa nostalgia, como se algo faltasse na história de Pirenópolis. Ele faz falta. Imagine a Cidade de Goiás sem o largo do Chafariz!



Lamento de Jarbas Jayme sobre a destruição do largo, 
extraído do livro Famílias Pirenopolinas, vol. II, p. 326.
                                                                    
Recentemente, num projeto de revitalização que infelizmente ficou pela metade, o Salão Paroquial foi demolido e construído na lateral da Matriz. Mas faltou verba para a complementação do que fora prometido. É que a praça Emmanoel Jayme Lopes, abandonada há muitos anos, enfeia o Centro Histórico de Pirenópolis. 

A praça Central
Quando a praça Central foi construída era um bonito projeto arquitetônico. Eu me lembro do chafariz que funcionava onde hoje há um buraco que serve de banheiro público clandestino. Com o tempo e o abandono, as raízes das árvores levantaram as pedras e alguns bancos de pedra. Está um aspecto horroroso de tapera. Não arrumam porque fica naquela espera: vai demolir ou não? E ainda tem o IPHAN com seus pareceres surpresa.

No estado em que está, o ideal seria retirar o prédio dos Correios e a praça para reviver os bons tempos e criar um espaço verde, de convivência, em pleno coração de Pirenópolis.
 

Adriano Curado

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sebastiana não quis partir

Sebastiana nasceu escrava da senzala do comendador. Quando ele morreu, entre seus bens semoventes estava lá a declaração de que possuía a escrava. Sua mãe se chamava Zulmira e era uma serva de lidas domésticas. Trabalhava como cozinheira, faxineira, camareira etc. E por conta desse seu trabalho, Sebastiana cresceu dentro da casa-grande, entremeio aos filhos do comendador. Zulmira foi até ama de leite de um deles, o Frederico, que mais tarde herdaria os bens do pai.

Estamos no princípio de 1870, já nos acordes finais da Guerra do Paraguai, mas o conflito foi o suficiente para matar dois dos três filhos do comendador. Pouco tempo depois o velho morreu de desgosto e Frederico se tornou senhor absoluto da fazenda. Sua mãe era uma mulher muito boa chamada Agripina, e quando o esposo faleceu ela se mudou para a rua. Nunca mais voltou à fazenda. Levou consigo as escravas Zulmira e Sebastiana para cuidar do casarão.

Dona agripina viveu bastante, quase noventa anos, mas nos acordes finais da existência estava bastante senil. O filho aparecia de vez em quando, recomendava cuidados especiais com a mãe, acertava a conta com o boticário e retornava para a fazenda.

Na entrada da década de 1880 faleceu Zulmira. Sebastiana então ficou sozinha no trato com a senhora doida e na administração da casa. Durou oito anos essa peleja, até que, certo dia, os sinos das igrejas amanheceram festivamente sonoros. Ninguém entendia a princípio o que se passava, mas logo a notícia correu. Estava abolida a escravidão.

Sem o esforço gratuito dos seus servos, Frederico foi forçado a vender a fazenda e a se mudar para a cidade. Ao chegar, encontrou Sebastiana a dar carinhosamente comida na boca de Agripina.

― Que é que você faz aqui? Não soube que todos agora estão livres?
― Soube sim, seu Frederico.
― Então por que não se foi ainda?

Sebastiana pensou por um tempo, olhou para a idosa que aguardava ansiosa a colherada de sopa e respondeu:

― Não quero partir. Estou já velha, não tenho para onde ir. E gosto daqui. Se o senhor concordar, eu fico aqui na casa.

Frederico concordou. Sua mãe morreu cinco anos depois. Ficaram os dois, ele e a velha Sebastiana, no casarão que ninguém visitava. Solitário e arredio, não casou e nem teve filhos esse Frederico. E quando a gripe espanhola o atingiu em 1920, antes de morrer doou a casa à escrava.

Sebastiana morreu com 109 anos de idade, bem lúcida e alegre. Gostava de ficar debruçada sobre o parapeito da janela e contava histórias da escravidão aos que passavam. Ela não tinha herdeiros, então a municipalidade ficou com a casa velha, que ruiu com o tempo e no lugar construíram uma escola.

Só decidi relembrar essa história porque Sebastiana não quis partir.

Adriano Curado