terça-feira, 16 de maio de 2017

Sebastião Brandão

SÉRIE BIOGRAFIAS
SEBASTIÃO BRANDÃO


SEBASTIÃO BRANDÃO (n. Pirenópolis, 20/01/1900 – f. Pirenópolis, 07/04/1977) foi sapateiro, músico, cantor e ator pirenopolino.

Era filho do dr. João Luiz Teixeira Brandão, primeiro pirenopolino médico, diplomado em 1889 pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, e de Maria Epifânia Borges. Era neto paterno do Coronel Joaquim Luiz Teixeira Brandão, que foi deputado federal, membro do conselho de intendentes e um grande benemérito da educação meiapontense, pois cedeu em 1868 gratuitamente uma casa de sua propriedade para que ali funcionasse o Colégio Senhor do Bonfim, dirigido pelo Dr. Francisco Henrique Raimundo Trigant des Genettes. Sua avó paterna era Josefa Alves de Amorim (Pequetita), filha do Capitão Luiz Alves de Amorim e de Ana Joaquina da Paixão Veiga.

Era católico praticante e membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento em Pirenópolis. 

No local onde está a casa verde era a sapataria de Brandão. Foto Google

Sebastião Brandão foi um exímio sapateiro, fabricava e reformava sapatos, chinelos, botas etc. Seus trabalhos eram muito requisitados pelos seus conterrâneos, e com o tempo a sapataria, que funcionava próximo de sua residência na Rua Nova, passou a ser um ponto de encontro para boa prosa e desafios de charadas.

Sebastião casou-se em 17/05/1924 com RIGOLETA DE AQUINO ALVES, filha de José Florentino Alves e de Maria Tomázia de Aquino, com quem teve Maria Nazian Brandão.

Com o falecimento de sua esposa, casou-se pela segunda vez, em 29/09/1928, com ELVIRA DA VEIGA CARVALHO, filha de Custódio de Carvalho e de Isabel Pereira da Veiga, com quem teve Leda Brandão, Sebastião Brandão, Maria das Dores Brandão, Ana Otília Brandão, Neves Bárbara Brandão, João Luiz Teixeira Brandão, Inácio Brandão, Sérvio Brandão e Tassiano Brandão.

Casarão onde morou e faleceu Sebastião Brandão. Imagem Google.

Em 1939, Sebastião Brandão arrematou em hasta pública o casarão construído por seu avô, o coronel Joaquim Luiz Teixeira Bandão, para onde se mudou com a segunda esposa, e quando faleceu, em 07/04/1977, deixou a casa em doação para o filho Sérvio Brandão, professor aposentado, que nela ainda reside com sua família.

Aclamado ator teatral, suas interpretações no palco arrancavam efusivas palmas da plateia. Durante toda a vida, até mesmo quando ficou doente, ele trabalhou nas artes cênicas. Gostava dos papéis que exigiam que o personagem cantasse porque podia mostrar outra habilidade sua, que era a voz afinada e forte, sua marca pessoal. Havia momentos, no entanto, que o bom músico que era exigia dele participação na orquestra da peça, e a contragosto tinha que deixar o palco para tocar. Sebastião Pompêo de Pina Júnior (Tãozico Pompeu), diretor teatral pirenopolino, era compadre do xará e não o deixava de fora. Era sempre seu convidado para papéis de destaque. Na peça “A graça de Deus”, Brandão já estava adoentado mas ainda assim representou o personagem do Cura, e cantou afinado e com voz firme.

Sobre os dotes musicais do biografado, passemos a palavra ao seu filho Tassiano Brandão: “Quando o dr. Brandão, que era o pai dele, foi embora, pediu ao Mestre Propício que tomasse conta. Disse: ‘É um filho que eu tenho, vou ter que sair, mas ensina para ele a letra e a música.’ Com isso meu pai pegou uma amizade muito grande com o Mestre Propício. E diziam que o Mestre Propício comentava que foi um investimento bom que a banda fez. Reportando ao José Joaquim do Nascimento, ele disse que não viu até hoje um sopro de bombardino igual ao meu pai. Ele tocou baixo no início, mas devido ter um bom sopro, logo foi para o bombardino e aí ficou. E posteriormente na orquestra do teatro, quando ele não ia representar, tocava trombone. E violoncelo no coro da igreja. Então, três instrumentos dependendo do lugar que ia.”

Era um dedicado músico, ensaiava todas as noites. Tocava bombardino até por volta de onze horas. Mas para não incomodar vizinho, parava e pegava o violoncelo até meia-noite ou mais. Dormia pouco. 

A formação original da Orquestra Pireneus

Em 1923, quando Sebastião Pompêo de Pina Júnior (Tãozico Pompeu) fundou em Pirenópolis a Orquestra Pireneus, o próprio Mestre Propício, também integrante, convidou Sebastião Brandão, então músico da Fênix, para fazer parte de sua composição, e embora tocasse bombardino, passou para o trombone para suprir a necessidade do conjunto, que foi considerado à época o melhor de Goiás.

A respeito de sua diversidade instrumental, ouçamos novamente Tassiano Brandão: “Ele aprendeu bombardino. Depois ele, já mais velho, falou para Luiz de Aquino que queria tocar o violoncelo. E Luiz de Aquino, para mexer no brio porque querida que ele aprendesse, falou que ele não aprenderia, que somente poderia fazê-lo no conservatório de música. Meu pai falou: ‘Vou mostrar que eu aprendo.’ Aprendeu sozinho, tocou e desceu a rua abaixo. Luiz de Aquino disse que lembrava dele com o violoncelo numa mão e o arco na outra. Chegou para mostrar para ele: ‘Fala uma peça que você quer que eu toque.’ Luiz de Aquino falou e ele tocou.”

Quando Pompeu Christovam de Pina assumiu a Banda Fênix, no início dos anos 1960, tentou consolidá-la com a presença dos músicos mais antigos, que haviam tocado anteriormente. Um dos convidados para compor a reestruturada corporação musical foi Sebastião Brandão. Conta-nos ainda Tassiano: “Pompeu sempre teve muita ligação com meu pai, os dois sempre tiveram muita amizade. Meu pai havia afastado, estava com problema na banda, não queria tocar, e Pompeu pediu para que ele voltasse. Ele falou que a embocadura estava ruim, estava destreinado. Então mandaram fazer uma dentadura nova para ele. Nos primeiros ensaios chegou a sangrar a boca de tanto esforço que ele fazia para a interpretação. Isso já na época do Vasco, quando Pompeu assumiu a direção. Meu pai tinha afastado por outras coisas alheias à música, por problemas internos da banda. Mas Pompeu o buscou de novo para a banda e ele firmou. Mas já estava mais velho, não estava dando conta.

Dr. João Luiz Teixeira Brandão
Uma observação interessante sobre o biografado é que ele não tinha ritmo para dança. Possuía um ouvido fantástico para a música e não dava conta de dançar. Corpo duro.

Antes dos setenta anos de idade o Mal de Parkinson o atingiu. As mãos não firmavam mais e a perna esquerda se arrastava quando andava. Logo não conseguiu mais tocar por falta de firmeza. Mas contam que certo dia, já idoso, ouvia a banda ensaiar no casarão vizinho à sua casa, com a mão em concha no ouvido e ao passar Pérsio Forzani ali próximo, comentou: “O bombardino não quer firmar.”

Violoncelo Stradivarius semelhante ao de Brandão

O violoncelo que tocava é um Stradivarius ou Estradivário. Tassiano conta que o instrumento “esteve no conservatório de música de São Paulo por dois anos, emprestado a um jovem da família de Freitas de Jaraguá, porque pertenceu ao avô dele que o trouxe de São Paulo. Sebastião à época, década de 1950, descobriu que ninguém naquela família tocava mais e o comprou. Depois de emprestado, foi devolvido. Atualmente está num conservatório de música de Nova York.

Sebastião Brandão faleceu em Pirenópolis em 07/04/1977, aos 77 anos de idade, bastante comprometido pelo Mal de Parkinson, que o fez definhar e sofrer. Deixou numerosa família que se espalhou pelo Brasil afora.

Adriano Curado
Fonte:
JAYME, Jarbas. JAYME, José Sisenando. Pirenópolis: Casas dos Homens. Goiânia: IPEHBC / SGC / UCG, 2002, 170 p.
JAYME, Jarbas. Famílias Pirenopolinas (Ensaios Genealógicos). Goiânia: Ed. UFG, 1971. Vol. II.
Entrevista com Tassiano Brandão em 05/03/2005.
Agradecimento ao Marcus Vinícius Brandão, filho de Tassiano, pela fotografia de seu avô.



O falecimento do maestro


Morreu ontem, 15/05/17, ao 76 anos de idade, o maestro Joaquim Thomaz Jayme, filho do pirenopolino Oscar Jayme, que foi contador, comerciante e rico fazendeiro. 

Joaquim fundou a Orquestra Filarmônica de Goiás, o Centro Cultural Gustav Ritter e a Orquestra Sinfônica de Goiânia. 

Em novembro do ano passado ele sofreu um violento derrame que o deixou paralisado. Desde então fazia tratamento no Centro de Reabilitação e Readaptação dr. Henrique Santillo (CRER) em Goiânia, onde faleceu.

Embora tenha nascido em Niquelândia, o maestro sempre foi muito ligado à cidade de Pirenópolis, com atuações efetivas na manutenção de nossa cultura. E era membro da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música.

Um grande perda para nossa cultura.

Adriano Curado

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Uma festa espontânea


Há uma peculiaridade que caracteriza a Festa do Divino de Pirenópolis: a espontaneidade. O povo dela participa por sua livre vontade. Alguns cedem horas de trabalho para o festeiro, outros se esforçam para tornar o espetáculo mais bonito.

Assim, temos aqueles que doam gêneros alimentícios, outros que ajudam a fazer a comida. E há também os que vão para a casa imperial dar um adjutório no que for preciso.

Nas imagens vemos dona Abadia Melo, de 87 anos, confeccionando bandeirolas para o cortejo imperial. Ela não mede esforços para contribuir com o Imperador e fica até altas horas nesse trabalho cansativo mas gratificante.

Adriano Curado



quinta-feira, 4 de maio de 2017

Circuito das Cavalhadas de Goiás


O Circuito das Cavalhadas de Goiás acontecerá em 13 municípios em 2017 e  visa facilitar, oficializar e sistematizar o apoio às manifestações culturais e religiosas no Estado, além de promover o turismo a partir da realização das festas religiosas.
 
Na foto a mais antiga Cavalhada do Estado que esse ano completa 201 anos, em Santa Cruz de Goiás.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Joaquim Tomás Jayme, o maestro da cidade


 Era outubro ou novembro, 1979. As massas das ruas, pelo Brasil afora, com o apoio da Anistia Internacional e cantando como se fosse um hino a canção O Bêbado e a Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, imortalizada por Elis Regina, pedia mudanças. O presidente era o quinto dos generais que se revezaram no “comando” durante os 21 anos do regime de exceção. E a Anistia chegou!

Chegou a Anistia e, logo após, um a um, os anistiados! Todos os dias, bandos de bons repórteres revezavam-se no saguão do aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, para receber os exilados e os clandestinos que retornavam à cidade. O Papa João Paulo II beijava o solo dos países visitados tão-logo desembarcava – alguns dos anistiados repetiam o gesto, mas todos se emocionavam e emocionavam-nos ao desembarcar. Sentíamos que o Brasil começava a mudar, e mudou!

O semanário Cinco de Março era a minha casa, na avenida 24 de Outubro, no bairro de Campinas (o berço de Goiânia). As idas ao aeroporto eram o momento de fazer fotos dos recém-chegados e também de marcar entrevistas – luxo típico dos semanários, já que os jornais diários têm pressa, a matéria “tem que sair amanhã”, e nós podíamos processar devagar qualquer tema.

Meu parente Jesus de Aquino Jaime, escritor virtuoso em prosa e poesia, ligou-me e disse: “Luiz, meu irmão Joaquim está chegando, quero que você o entreviste”. Contei ao Batista Custódio, que gostou da novidade – nós, do CM, éramos, sem dúvida, os que tratávamos melhor as entrevistas com nossos conterrâneos de regresso. Lembro-me bem daquela manhã, Joaquim e Jesus comigo, e eu escarafunchando a vida do parente ilustre! Joaquim Jayme é um dos três...

Bem: seu avô era Joaquim Tomás de Aquino, clarinetista na Banda Fênix, em Pirenópolis, lá pela virada do Século XIX. Três dos netos do pirenopolino Quim Tomás ganharam o nome do avô – Joaquim Tomás Lopes, Joaquim Tomás de Aquino Lopes e Joaquim Tomás Jayme (os dois primeiros faleceram antes do esperado). Em todos notei o orgulho de ostentarem o nome do avô – fato de que também me orgulho, pois aqueles antigos Aquino deixaram-nos, sim, belos exemplos.

O parente maestro sofreu o primeiro expurgo ao ter que deixar Goiânia – e daqui foi para Campinas (SP), onde atuou como professor universitário e deixou marcas. De lá, teve de deixar o país e exilou-se no Chile, como vários outros brasileiros. Mas em 1973 o golpe de Pinochet mostrou-se ainda mais sangrento que o havido no Brasil, nove anos antes. E o maestro Joaquim Jayme se foi para a Alemanha.

Voltando, ele atuou na Orquestra Sinfônica de Goiás, sendo um de seus maestros fundadores (ao lado de outro maestro pirenopolino, Brás Wilson Pompeu de Pina Júnior). Idas e vindas na história de música erudita em Goiás fizeram com que Joaquim Jayme fincasse pé na Secretaria de Cultura da cidade de Goiânia, sendo o maestro regente da Sinfônica de Goiânia, sempre.

Há alguns meses sofreu um AVC e está internado, em tratamento, no CRER, o nosso hospital de recuperação. Seu olhar pareceu-me o único meio de ligação com o mundo exterior, e nos passa duas sensações – ele está lúcido e triste.

Incomodou-me profundamente o sentimento que me impediu de ficar mais alguns minutos ao seu lado. Naquele olhar triste, acho eu, senti por ele. Senti que vivemos uma sociedade mal-educada, ingrata, indiferente. O homem que há tantas décadas ensinou Música e elevou bem-estar de multidões, enriqueceu corações e deu à capital de Goiás a excelsa condição de ter a sua orquestra sofre o menosprezo desse nosso povo.

Aliás, o povo e tudo o mais! O DM cuidou de produzir matéria jornalística (de Hélmiton Prateado), no afã de avaliar reações. Debalde (diria um velho mestre dos meus tempos ginasiais). Nem mesmo o meio literário, o das artes plásticas e, sobretudo, o da música se mexeu. Leda Selma, poetisa e presidente da Academia Goiana de Letras, pediu-me – “Luiz, você que é parente, visite-o em nome da Academia”.

Indigna-me tal indiferença! Fosse ele um deputado Eduardo Cunha ou um senador Renan, um batalhão de áulicos estaria pelos corredores do hospital na tentativa de aparecer como papagaio-de-pirata em fotos de jornais ou vídeos da tevê. Fosse ele um cantador sem estudo e sem domínio da Língua e da Teoria Musical, até vice-presidente da República estaria aqui (ah, essa figura não há mais! Menos mal...).

Ministros da Cultura e da Educação deveriam pedir notícias dele. Entidades como o Sindicato e a Ordem dos Músicos certamente não sabem notícias dele, caso alguém de longe ligasse para se informar. E o maestro mais ativo dentre os tantos contemporâneos – no que toca a representar Goiás – já está esquecido por sua gente.

Contudo, e para minha alegria, para gáudio deste poeta das mesmas raízes – telúricas e genealógicas – senti naquele olhar triste e silente uma qualidade que sempre o marcou: Joaquim Jayme mantém, contudo, a altivez do artista que teve a coragem de insurgir-se contra a ditadura, aceitou com bravura e determinação o exílio, retornou à terra trazendo mais conhecimento ainda e não se dobrou aos poderes.

Muito menos aos ingratos.

Crônica de Luiz de Aquino Alves Neto publicada no Diário da Manhã do dia 26/04/17, Caderno Opinião Pública, p. 1.

Imagem de Meia Ponte


Achei interessantíssima esta fotografia tirada pela Comissão Cruls. Embora não esteja tão nítida quanto os outros registros que eles fizeram, mostra-nos uma particularidade interessante que é a Igreja do Bonfim em estilo gótico, com a torre abaulada. Bem diferente do templo que conhecemos hoje. Também chama a atenção as poucas casas lá embaixo e o mato na via pública.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Festa em família


O tio Bené (o mais velho entre os três caçulas) à esquerda, tia Beti à direita - e tome cantoria "das boas"!

Festa em família

Feriado em cidade turística é inverso ao trivial nos centros maiores. Falo de Caldas Novas, onde os dias de folga atraem visitantes e a população flutuante se torna muito superior à massa residente. Com isso, há intensa atividade comercial e dos serviços públicos – em especial pelos que cuidam da segurança e da emergência.

Era manhã, nesta sexta 21 de abril, quando tomei a BR-153 para, logo, acessar a rodovia estadual que demanda a Caldas Novas (aqui em Goiás, a imprensa tem o péssimo hábito de dizer “gê-ó-duzentos-e-trinta e seis” sem dizer a tradução desse código, como se cada leitor, ouvinte ou telespectador soubesse de cor essas cifras dos órgãos de construção e gestão das estradas). Pouco depois de deixar Piracanjuba, peguei trânsito intenso e lento, algo no ritmo dos 60 km/h – ou menos – e somente após uns 40 minutos apareceu a causa – uma batida de quatro veículos, que ficaram sem condições de trafegar.

Cheguei à terrinha natal pouco antes do meio-dia – chovia um chuvisco constante, que exigia ligar e desligar o limpador do para-brisa. E cheguei para surpresa do meu irmão Edmar, aniversariante de 70 anos neste domingo, 23 de abril. Disse-lhe “não poderei vir para o seu aniversário, então vim lhe dar meu abraço”, ao que ele emendou “Ah! então fique até domingo”. A surpresa deu certo – ele só percebeu que festejávamos com antecedência quando outros começaram a chegar.
A ideia da antecipação foi da Leda, filha mais velha do Edmar e da Irani. E logo chegaram nosso irmão mais novo, o Ângelo, apelidado de Xiu (não me perguntem), e a outra filha, Regina. E os netos, um bando de sobrinhos e primos, e ainda nossos tios Geruza e Benedito (irmãos de nosso pai). Tia Geruza não conseguiu, em momento algum, atender aos nossos pedidos para que cantasse: ao violão, o tio Bené, lembrava meu avô (que se foi sem pedi licença, aos 78 anos) e de meu pai. E cantamos, todos juntos, canções compostas por eles. Era a alegria pelo encontro, mas com a tristeza da saudade sem solução – e reafirmo que somos todos masoquistas.

Tia Geruza: a emoção trava a garganta... 

Faltaram nossas irmãs – Eliane ficou em Goiânia e Auxiliadora em Uberlândia, cada qual envolvida com suas coisas de vida. Bené, o primeiro dos meus tios caçulas (são três os meus tios mais novos que eu), disse-me que todos os dias, ao se levantar, “conversa” com seu irmão mais velho (meu pai, falecido em 2011), pedindo-lhe: “Israel, ajude-me a tocar tão bem quanto você”. A tia Beti, viúva do Rui, dá-se ao luxo e nos dá a alegria de sua voz bonita, afinadíssima e imutável! E ali estava ela com quatro gerações – filha, netos e bisnetos!


O selo Boteco Aquino é para que nenhum
vereador, em qualquer lugar do Brasil, me
encha paciência. Somos, sim, de boteco.

Edmar, meu irmão mais velho (entendam: eu sou o primogênito, ele veio logo em seguida, ou seja, ele é o mais velho dentre os meus irmãos) marca, pois, 70 anos! E o tio Bené já anuncia, para 2018: “Quero comemorar o meu Ano 70 lá em Pirenópolis”.


Olhei meu irmão, sem comentar nada. Seus cabelos, mais brancos que os meus, eram claros como os de espiga de milho, loiros na infância, castanhos na juventude e precocemente grisalhos e, enfim, brancos, bem antes que minha cabeça se tingisse de cinzas. Recordei nossas brigas de infância, nosso exílio de adolescência no Rio de Janeiro, com nossa avó, tios e tias da banda materna. Nosso retorno a Goiás – eu fiquei em Goiânia, ele escolheu Caldas Novas; revi os nascimentos de nossos filhos – enfim, este nosso envelhecer em torno da casa da família maior, sempre agregando nossas próprias proles e companheiras...

Um beijo, meu irmão! Sabemos, agora, que o tempo é curto. Aproveitemo-nos mais vezes!

Edmar é o da direita. Entre nós dois, o caçula dos homens - Ângelo (ou, simplesmente, Xiu).

Texto de Luiz de Aquino Alves Neto

sexta-feira, 21 de abril de 2017

História de tio Zico


João Gonçalves Lopes (1898 – 1978) era conhecido como Zico, filho de Absalão Gonçalves Lopes (Seu Biça) e de Maria Jayme Lopes (Sinhá), neto do padre Simeão. Era um homem muito rico e esbanjador. Lavava a mula com cerveja numa época em que essa bebida valia o que hoje vale uísque. Depois que enviuvou de Adelaide Borges de Carvalho e ficou pobre, foi morar de favor na casa da irmã, minha bisavó Inácia, casada com Luiz Abadia de Pina (Lulu). Depois disso, entrou para o folclore da família. Até hoje, quando alguém fala demais, dizemos: “Você está parecendo tio Zico”. Quando pegava um desavisado para contar um caso, eram horas de repetições e detalhes angustiantes, e ele mesmo ria das piadas e respondia aos próprios comentários. Ficava dia e noite de paletó preto e óculos escuros. Às quatro da tarde, pontualmente, tomava banho e já se preparava para dormir. Certa feita, tio Mauro o levou ao cinema e comprou para ele uma porção de pururuca. Filme de cenas silenciosas, os espectadores concentrados e tio Zico ali, na primeira fila, de óculos escuros e croc croc croc na pururuca. Para descansar minha bisa Inácia, às vezes tio Mauro o levava para o posto de gasolina que tinha. Numa dessas alguém perguntou ao tio Zico se ele era advogado do posto e foi o quanto bastou. Tio Mauro lhe deu uma pasta de executivo, espetou-lhe um broche da OAB no paletó (sempre o mesmo) e ele ficava lá sentado fazendo pose. Não caberia aqui as histórias do tio Zico, então foi finalizar com uma clássica. Almoço da família de domingo, todo mundo em volta da mesa, tio Zico falando e comendo, e tando fez que conseguiu pescar uma mandioca frita com a manga do ensebado paletó. Detalhe: não percebeu.

Adriano Curado